Um conjunto de 16 desenhos atribuídos a Tarsila do Amaral teve sua autoria confirmada, nesta segunda-feira, por um comitê, liderado pelo perito Douglas Quintale, e ganhou um certificado de autenticidade da Tarsila S.A., empresa gerida por parte dos herdeiros da artista e que administra a sua obra. Mas outra parte da família da pintora contesta a decisão, pondo em dúvida o trabalho do perito.
As ilustrações mostram cenas do litoral brasileiro —como barquinhos, coqueiros e o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro— e teriam sido feitas por Tarsila para ilustrar um livro reunindo as conferências que o poeta Guilherme de Almeida deu pelo Brasil na década de 1920. Contudo, o volume nunca foi publicado e, assim, os desenhos não vieram a público.
Desse conjunto, 15 ilustrações pertencem ao tradutor e pesquisador Alípio Neto, que vinha lutando na Justiça para que as obras fossem certificadas. Neto descobriu os desenhos no meio dos milhares de papéis que herdou de Frederico Ozanam, o biógrafo de Guilherme de Almeida.
Neto tentava, havia anos, confirmar a autenticidade e, em 2023, entrou com um processo na Justiça contra duas das maiores conhecedoras da obra de Tarsila, Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros, e a Base 7, produtora do catálogo raisonné da pintora, que reúne todos os seus trabalhos e é referência para o mercado e para os museus. A ação pedia que as três partes reconhecessem que os desenhos eram da mão de Tarsila.
Mas Neto perdeu o processo, ou seja, a autenticidade foi negada na Justiça, de acordo com Arystóbulo Freitas, advogado que representa Tarsilinha do Amaral, a sobrinha-neta da artista, que tem ao seu lado uma parte da família. “Ele desistiu de fazer uma perícia em juízo para fazer uma coisa às escondidas”, diz o advogado.
O dono das ilustrações, contudo, sustenta que o processo “foi extinto” e que, com a confirmação da autoria dos desenhos, o imbróglio na Justiça é “história velha”. Além de Quintale, um perito contratado pela Tarsila S.A., Paola Montenegro, a sobrinha-bisneta de Tarsila e que está à frente dos direitos autorais de sua tia-bisavó, também atestou a veracidade.
Os especialistas que fizeram o catálogo raisonné de Tarsila não se manifestaram, dado que não têm mais este poder, depois de terem sido impedidos, pelos atuais detentores dos direitos autorais da artista, de emitirem opinião sobre a autenticidade de obras da modernista.
No entanto, esses profissionais ainda são considerados pelo mercado e pelo meio da arte como as maiores autoridades na obra da pintora.
Para Quintale, a avaliação dos antigos especialistas hoje é “ultrapassada e obsoleta”. Além das 16 ilustrações, ele declarou como verdadeira “Paisagem 1925”, uma pintura polêmica atribuída a Tarsila, apontada como falsa por grande parte do establishment artístico do país.
“O mercado usa e abusa do conflito de interesses e quer continuar mantendo vantagens que ele não tem com um terceiro que é estranho a ele, como eu”, diz Quintale, por telefone, sobre o questionamento das certificações pelo setor. “Não existe uma justificativa plausível para a negação de métodos com princípios científicos.”
Neto, o dono dos desenhos, diz que, no futuro, pretende vender as ilustrações —por isso, a certificação é fundamental. Antes disso, ele afirma que há projetos de um livro, de uma exposição e de conferências sobre as obras, para que o público possa ter contato com elas.
Neto se mostra agradecido ao comitê que certificou a autoria e afirma que o grupo encontrou uma 16ª ilustração, na qual se vê um cenário da costa da Bahia. Este desenho pertence ao Museu Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo. Com o selo de autenticidade, as 16 ilustrações podem ser incluídas numa eventual reedição do catálogo raisonné.
Quintale, o perito, conta ter usado testes de laboratório da Universidade de São Paulo e feito exames científicos que analisaram a tinta e o papel utilizados pela artista, comparando os resultados com outros trabalhos de Tarsila.
“Nenhuma avaliação funciona sem base de comparação. Isso nos deixa muito seguros, porque hoje temos a completa dimensão e posse dos bancos de dados materiais e técnicos da Tarsila, que abarcam a vida artística dela do começo ao fim”, afirma Quintale.
Ele diz também ter levado em consideração o histórico dos desenhos, ou seja, por quem eles passaram desde a sua criação até o presente momento. Além disso, analisou duas cartas —uma do poeta Guilherme de Almeida, que encomendou os desenhos para ilustrar seu livro, e outra de sua mulher, Belkiss Barrozo de Almeida, agradecendo a Tarsila pelas ilustrações.
O advogado de Tarsilinha contesta. Quintale “é um desqualificado e apresenta tudo como se fosse um grande descobridor da obra da Tarsila do Amaral”, ele diz, o que “gera uma revolta muito grande” na parte dos herdeiros que não concorda em como o legado da pintora é gerido pela outra parte da família.
O reconhecimento das ilustrações sucede um racha entre os herdeiros de Tarsila. Uma parte deles é liderada por Tarsilinha, sobrinha-neta da artista que era a responsável por gerir sua obra até 2022, quando foi acusada de fazer vendas paralelas de algumas obras sem repassar os lucros ao resto dos herdeiros, num montante entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões.
Segundo o advogado de Tarsilinha, o lado da família comandado por ela prepara uma ação contra os herdeiros que a acusam de desviar dinheiro, além de estudarem alguma medida em relação à certificação dos desenhos. Uma possibilidade seria entrar com uma ação para impedir que os herdeiros que agora controlam os direitos autorais sigam nessa função.