Home » Camundongos clonados acumulam mutações graves – 27/03/2026 – Ciência

Camundongos clonados acumulam mutações graves – 27/03/2026 – Ciência

by Silas Câmara

Por duas duas décadas, cientistas clonaram camundongos repetidamente. O resultado? Mutações genéticas graves que se acumularam ao longo das gerações e, no fim, foram fatais.

O processo foi descrito em um estudo publicado na última terça-feira (24) na revista Nature Communications.

A partir de uma única fêmea, os pesquisadores geraram 1.206 camundongos de 2005 a 2025 em um laboratório no Japão.

Nas primeiras 25 gerações, não houve sinais externos de problemas. Depois, porém, a situação começou a mudar. A 58ª geração, sobrecarregada por mutações, mas sem anormalidades físicas visíveis, morreu poucos dias após o nascimento.

A pesquisa contradiz a ideia de que clones são cópias idênticas do animal doador original. Além disso, refuta a ideia de que a tecnologia atual de clonagem possa ser realizada indefinidamente sem efeitos nocivos.

“Ninguém jamais havia reclonado por tanto tempo antes”, disse o biólogo Teruhiko Wakayama, da Universidade de Yamanashi, autor do novo estudo. “É a primeira vez que descobrimos que a reclonagem em algum momento atinge seu limite.”

“Antes se acreditava que os clones eram idênticos ao original, porém ficou claro por meio desse estudo que mutações ocorrem a uma taxa três vezes maior do que em descendentes nascidos por acasalamento natural”, afirmou o pesquisador.

“O estudo revelou uma das razões pelas quais os mamíferos, diferentemente das plantas e dos animais inferiores, não conseguem manter suas espécies por meio da clonagem.”

Depois de gerar o primeiro clone, os pesquisadores repetiram o processo a cada 3 ou 4 meses, clonando cada geração a partir da anterior. Assim como a doadora original, todos os clones eram fêmeas com pelagem marrom.

Em 2013, os pesquisadores haviam publicado resultados preliminares abrangendo as primeiras 25 gerações. Aqueles dados indicaram que os clones eram saudáveis, sem efeitos negativos aparentes.

“Naquela época, concluímos que a reclonagem provavelmente poderia continuar indefinidamente. No entanto, naquele estudo, não examinamos as sequências genéticas. Continuamos nossa pesquisa e descobrimos que a conclusão anterior estava incorreta, ou seja, existe um limite para a reclonagem”, explicou Wakayama.

Os pesquisadores sequenciaram os genomas de dez clones de várias gerações para entender o que estava acontecendo no nível genético.

Eles descobriram que a clonagem em série produziu um efeito semelhante ao de duplicar uma imagem usando uma copiadora. Na primeira cópia, a qualidade da imagem deteriora ligeiramente. Ao copiar essa imagem copiada, a qualidade deteriora ainda mais. Repetir o processo inúmeras vezes resulta em uma imagem muito diferente da original.

Os resultados do estudo, segundo eles, apontaram para a importância da reprodução sexual no combate a mutações genéticas deletérias em mamíferos.

Os pesquisadores avaliaram a fertilidade dos clones cruzando-os com camundongos machos comuns. Até a 20ª geração, elas deram à luz cerca de dez filhotes por ninhada, assim como camundongos fêmeas comuns. Mas, no fim, os clones começaram a ter ninhadas menores, refletindo os efeitos do acúmulo de mutações.

Os cientistas utilizaram uma técnica chamada transferência nuclear para gerar os clones. O mesmo método foi adotado para produzir a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado com sucesso, na Escócia em 1996, e Cumulina, o primeiro camundongo clonado com sucesso, no Havaí em 1998.

Com a tecnologia de transferência nuclear, os pesquisadores geraram um embrião transferindo o núcleo, o principal repositório de informação genética de uma célula, de uma célula doadora para um óvulo cujo próprio núcleo foi removido. Uma célula ovariana especializada, chamada célula do cumulus, que envolve e nutre o óvulo em desenvolvimento, foi utilizada na clonagem.

“Acreditávamos que poderíamos criar um número infinito de clones. É por isso que esses resultados são tão decepcionantes. Neste momento, não temos ideias para superar essa limitação. Acredito que precisamos desenvolver um novo método que melhore a tecnologia de transferência nuclear”, disse o autor do estudo.

Um aumento de mutações prejudiciais em larga escala começou a partir da 27ª geração, incluindo anomalias cromossômicas. Por exemplo, uma cópia do cromossomo X foi perdida —cromossomos são estruturas em forma de fio que transportam informações genéticas de célula para célula. Nos mamíferos, as fêmeas carregam dois cromossomos X, um herdado de cada progenitor biológico.

“Na clonagem, todos os genes são passados para a próxima geração, ou seja, aqueles defeituosos também são transmitidos”, afirmou Wakayama.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment