Uma das mais famosas regiões produtoras de vinhos do planeta domina o plantio de uvas desde pelo menos 600 a.C. Foi por volta dessa época que mercadores e colonos originários da Grécia e de regiões vizinhas começaram a levar a fruta para o território dos gauleses, mais conhecido hoje como França.
As conclusões vêm do estudo do DNA de uvas cultivadas em diversas partes do solo francês na Antiguidade e na Idade Média. A análise genômica revela o surgimento de um sistema de melhoramento genético complexo e “globalizado” desde os primeiros séculos, envolvendo cruzamentos com variedades silvestres nativas e com outras, já domesticadas, provenientes de diversas regiões do mundo antigo.
Talvez o mais surpreendente, porém, seja a grande continuidade que existe entre as variedades francesas medievais –e, em certos casos, até da época do Império Romano– e as frutas usadas ainda hoje para fazer alguns dos vinhos mais apreciados do mundo. Basta dizer que a uva pinot noir, com intenso colorido arroxeado-escuro, é, para todos os efeitos, geneticamente idêntica a frutas cultivadas entre os anos de 1400 e 1500 em território francês.
A equipe de pesquisadores responsável pelo trabalho apresentou suas descobertas em artigo publicado na última terça-feira (24) no periódico especializado Nature Communications.
Liderados por Laurent Bouby, da Universidade de Montpellier, e Ludovic Orlando, da Universidade de Toulouse, os cientistas analisaram o DNA de um total de 54 sementes de uvas encontradas em sítios arqueológicos. Quase todas vêm da própria França, com exceção de duas amostras de Ibiza (arquipélago espanhol das ilhas Baleares, no Mediterrâneo).
A amostragem começa em contextos arqueológicos da Idade do Bronze (2.250 a.C.) e vai até o fim da Idade Média (em torno de 1450 d.C.).
Nessas diferentes camadas históricas, as uvas mais antigas do território francês são todas derivadas de parreiras selvagens, da subespécie Vitis vinifera sylvestris (só a última palavra em latim muda no nome da forma domesticada da planta, V. vinifera vinifera).
A descoberta reforça a ideia de que, no Mediterrâneo Ocidental e regiões adjacentes, o cultivo começou de forma relativamente tardia e se espalhou a partir do Oriente Próximo e do Cáucaso, vindo de regiões como a Armênia e a Geórgia.
A situação começa a mudar do meio para o fim da Idade do Ferro (o período que vai de 600 a.C. até 50 a.C., momento em que começa a conquista da chamada Gália, equivalente ao território francês, pelos romanos de Júlio César). Já se sabia que, nessa época, os contatos dos gauleses com navegantes vindos da Grécia –responsáveis por fundar, por exemplo, a cidade de Marselha no sul do país– criaram uma demanda por diversos produtos do Mediterrâneo Oriental, entre os quais o vinho e a cerâmica grega de alta qualidade.
No entanto, em vez de apenas importar a bebida já pronta para consumo, colonos helênicos também passaram a plantar parreiras em áreas da costa com clima favorável. A partir dessas regiões, a nova lavoura foi se espalhando pela Gália, num processo que se intensificou com o domínio romano, já que os novos senhores da região também eram grandes apreciadores de vinho.
É possível documentar a aclimatação cada vez maior das parreiras ao futuro território francês por meio das análises genômicas, que revelam, de um lado, a chegada de variedades vindas do Oriente Médio, dos Bálcãs e da península Ibérica e, do outro, o cruzamento das plantas domésticas com suas primas selvagens nativas. Já por volta do ano 500 a.C., por exemplo, uma amostra encontrada em Lattes, perto de Montpellier, tem cerca de 40% de seu DNA derivado das parreiras silvestres. Esse processo pode ser detectado tanto em uvas do sul quanto do norte da atual França ao longo do período romano.
A equipe descobriu ainda que a propagação vegetativa das parreiras, ou seja, sem passar pela reprodução sexuada das plantas, já era utilizada com frequência desde a Antiguidade. O processo tem a vantagem de aumentar muito as chances de que as “plantas-filhas” tenham as mesmas qualidades que a “planta-mãe”, já que são produzidos clones, usando, por exemplo, pedaços de ramos da parreira original.
A coisa funciona em escalas de tempo tão grandes que uma uva do período romano achada em Limoges, datada entre os anos 170 d.C. e 240 d.C., tem um clone medieval encontrado em Valenciennes, a 530 km de distância espacial e mais de um milênio de distância temporal (a fruta foi comida entre os anos de 1100 e 1200). É também de Valenciennes, aliás, a uva geneticamente idêntica à variedade pinot noir de hoje.
Os pesquisadores esperam usar os dados genômicos para investigar também características mais palpáveis das uvas antigas, como coloração, tamanho, tempo de maturação e outros fatores.