Algumas pessoas, provavelmente muito poucas, talvez ainda duvidem que “Cabeça Dinossauro” seja o maior disco do rock nacional. Mas quem esteve na casa paulistana Espaço Unimed na noite deste sábado, na abertura de uma turnê que comemora os 40 anos do lançamento do álbum, deixou ali qualquer dúvida.
“Cabeça Dinossauro” mudou radicalmente a carreira dos Titãs. Neste terceiro álbum, depois de dois discos com mistura de rock, pop, reggae e até pitadas de jovem guarda e música brega, o grupo mergulhou em rock acelerado, quase punk, de letras contundentes.
A banda botou o pé na porta numa época politicamente conturbada, quando muitos ainda duvidavam do fim da ditadura militar. Os Titãs dispararam tiros certeiros nas instituições. Os títulos das canções raivosas já entregavam qual era o alvo de cada faixa: “Família”, “Igreja”, “Polícia”.
Assistindo ao show com todas as músicas do álbum tocadas num bloco inicial, na ordem das faixas no vinil, é fácil perceber que “Cabeça Dinossauro” é muito mais do que rock rápido e gritado. É um mosaico de tudo que podia incomodar um jovem em 1986, da chatice do almoço familiar ao abuso de ver um amigo surrado pela polícia.
Trata-se de um álbum de gente inconformada e disposta a botar a boca no trombone. Falando em boca, na gravação do disco os Titãs tinham cinco vocalistas, às vezes cantando em uníssono. Era uma das novidades do álbum, e tornou-se marca registrada do canto titânico.
Com as saídas de Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulo Miklos, hoje permanecem do quinteto vocal Sergio Britto e Branco Mello. Enquanto Britto assume uma boa carga de vocais no show, Mello consegue driblar os problemas com a voz depois de passar por duas cirurgias. Rouco como gostam os fãs de heavy metal cavernoso, ele faz uma entrega emocionante. Afinal de contas, o rock é áspero.
E Tony Bellotto, que na época da abundância dos cantores no grupo ficava limitado a tocar guitarra, aparece muito mais no palco. É um guitarrista veterano que melhora com o passar do tempo, bem à vontade na figura do “guitar hero”. Como vocalista “iniciante”, segura firme canções bem escolhidas para sua voz, como “Família” e “Igreja”.
Como os outros, Bellotto fez uma performance física vigorosa. Entre uma canção e outra, ele agradeceu a seus médicos que estavam na plateia, saudando o cirurgião que o operou para tratar um câncer recente. “Se não fosse ele, eu não estaria aqui”, disse o guitarrista.
A primeira parte do show, que é o “Cabeça Dinossauro” completo, provoca uma comunhão incrível entre banda e público. E uma surpresa —uma plateia dividida em integrantes de várias gerações. A celebração dos 40 anos do disco não foi apenas nostalgia, mas a catequese do público mais jovem.
Depois de “O Que” encerrar a fiel reprodução do álbum, os Titãs partem para uma estratégia, no mínimo, muito corajosa. Seria fácil completar o show com os inúmeros hits da banda, mas o trio preferiu pinçar do repertório dos outros álbuns do grupo canções que pudessem dialogar com “Cabeça Dinossauro”.
Em outras palavras, rocks acelerados, batidas fortes e letras agressivas. Um repertório sem preocupação de fazer os fãs entoarem hits. Algumas canções estão mais presentes na memória afetiva da plateia, como “Será que É Disso que Eu Necessito”, do disco “Titanomaquia”, de 1993, enquanto outras não encontram a mesma repercussão, como “Eu Não Sei Fazer Música”, do álbum “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”, de 1991.
Algumas músicas soavam como inéditas para parte da plateia. Caso de “Canção da Vingança”, que faz parte de “Doze Flores Amarelas”, a ópera-rock lançada em 2018. Britto chegou a brincar com a estranheza do público diante de algumas canções. “Quantos aqui conheciam essa?”, disparou.
Além de divisão dos vocais, cada Titã original se dedicou a um instrumento —Britto nos teclados, Branco no baixo e Bellotto na guitarra. Eles subiram ao palco acompanhados do baterista Mario Fabre e dos guitarristas Beto Lee e Alexandre de Orio, todos com rodagem nas turnês recentes.
Essa escolha de repertório reduz um pouco a resposta empolgada do público depois do bombardeio de “Cbeça Dinossauro”, mas talvez isso pudesse acontecer mesmo com músicas mais conhecidas. As faixas do disco que completa 40 anos são realmente melhores do que as colegas de repertório dos Titãs, ou de qualquer outra banda.
E isso é extremamente evidente. Até canções mais básicas, como “Tô Cansado” ou “Dívidas” são muito mais poderosas do que praticamente tudo que o rock nacional lançou nas últimas décadas. Quando eles tocam as mais complexas “AA UU”, “Porrada”, “Bichos Escrotos” ou “O Que”, essa comparação é até cruel.
Mas, para aprovação geral da plateia, o grupo escolheu para o sprint final do show algumas músicas que estão na coleção de hits: “Diversão”, “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, “Lugar Nenhum” e “Eu Não Aguento”, esta praticamente um filhote de “Polícia”, com refrão matador: “Eu não aguento, eu não aguento / É de noite, é de dia / Mão na cabeça e documento!”.
Para o bis consagrador, dois sucessos da primeira prateleira: “Desordem” e “Flores”. Essa última pode não conversar com o repertório do homenageado “Cabeça Dinossauro”, mas é mais um atestado da força criativa do Titãs.