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Irã: Por que a ilha de Kharg é estratégica na guerra – 30/03/2026 – Mundo

by Silas Câmara

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alertou sobre a possibilidade de novas ações americanas contra uma pequena ilha na costa do Irã que abriga um importante terminal de petróleo considerado vital para a economia do país.

Em entrevista ao Financial Times no domingo (29), Trump disse que quer tomar o petróleo do Irã e que estava considerando a possibilidade de invadir a ilha de Kharg. Mas acrescentou que uma operação “significaria que teríamos que ficar lá [na ilha de Kharg] por um tempo”.

Em 13 de março, o presidente dos EUA disse que as instalações militares da ilha de Kharg foram “totalmente destruídas”, mas que o governo havia evitado atacar sua infraestrutura petrolífera.

No início do mês, o veículo de notícias americano Axios, citando quatro pessoas com conhecimento do assunto, afirmou que o governo estava considerando planos para ocupar ou bloquear a ilha a fim de pressionar o Irã a reabrir o estreito de Hormuz, um dos canais de navegação mais importantes do mundo, localizado ao sul da costa iraniana.

Há grande especulação sobre a possibilidade de as forças americanas tentarem tomar o controle da ilha, que além de interromper as exportações de petróleo do Irã, poderia servir como plataforma estratégica para ataques contra o território continental.

Tomar a ilha efetivamente também cortaria grande parte do sustento da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), afetando sua capacidade de conduzir guerras, afirma o analista de segurança Mikey Kay, do Security Brief da BBC.

Por que a ilha de Kharg é importante para o Irã?

Um ataque dos EUA a esta pequena, mas vital ilha no norte do Golfo, seria como atingir a veia jugular econômica do Irã. A ilha de Kharg é uma pequena faixa de terra de cerca de 8 km de comprimento, localizada a aproximadamente 24 km da costa do Irã.

Apesar de seu tamanho, é uma das peças mais importantes da infraestrutura energética do país persa, com 90% do petróleo bruto exportado pelo Irã passando por lá.

Trump mencionou especificamente a possibilidade de atacar esses oleodutos, mas disse que até agora havia evitado fazê-lo para não causar danos a longo prazo à economia do Irã. “Podemos fazer isso em cinco minutos. Vai acabar”, disse Trump em 16 de março. “Basta uma palavra, e os oleodutos também desaparecerão. Mas levará muito tempo para reconstruir tudo.”

Diariamente, o terminal processa cerca de 1,3 milhão de barris de petróleo bruto, transportados por meio de uma complexa rede de oleodutos submarinos provenientes dos três principais campos offshore do Irã: Aboozar, Forouzan e Dorood.

Sua capacidade de armazenamento é de 18 milhões de barris, o equivalente a cerca de 10 a 12 dias de exportações em condições normais.

Petroleiros muito grandes, capazes de transportar até 85 milhões de galões de petróleo, conseguem atracar nos longos píeres da ilha para carregar o combustível. A costa da ilha fica próxima o suficiente de águas profundas, ao contrário da costa mais rasa do continente.

Os petroleiros então retornam pelo Golfo e saem pelo estreito de Hormuz, rumo à China, o principal comprador de petróleo iraniano.

O que os EUA e o Irã disseram sobre o ataque de 13 de março?

Em 13 de março, Trump afirmou que o Comando Central dos EUA havia “executado um dos bombardeios mais poderosos da história do Oriente Médio e obliterado completamente todos os alvos militares na joia da coroa do Irã, a ilha de Kharg”.

Ele acrescentou que, “por razões de decência”, havia “optado por não destruir a infraestrutura petrolífera da ilha”.

O Comando Central afirmou que as forças americanas atingiram “mais de 90 alvos militares iranianos na ilha de Kharg, preservando a infraestrutura petrolífera”. A mídia estatal iraniana informou que não houve danos às instalações petrolíferas da ilha.

A agência de notícias Fars disse que os ataques americanos tiveram como alvo as defesas aéreas, uma base naval, a torre de controle do aeroporto e um hangar de helicópteros.

Os militares do país alertaram que a infraestrutura de petróleo e energia pertencente a empresas que trabalham com os EUA seria “imediatamente destruída e reduzida a cinzas” se suas instalações de energia fossem atacadas.

Uma ação militar para destruir a infraestrutura da ilha seria extremamente prejudicial ao Irã.

Também representaria uma escalada significativa no conflito. Isso provavelmente faria os preços globais do petróleo dispararem ainda mais e também poderia levar o Irã a atacar mais infraestruturas petrolíferas no Oriente Médio.

Um mês após o início da guerra, o Irã ainda tem capacidade para lançar um grande número de drones de baixo custo e alto poder explosivo contra seus vizinhos árabes do Golfo, bem como contra navios mercantes.

Potencialmente, poderia expandir esses alvos para incluir infraestruturas vitais, como usinas de dessalinização que fornecem água potável para milhões de pessoas.

Em entrevista à BBC News Mundo —serviço em espanhol da BBC—, antes do ataque americano às instalações militares da ilha, Neil Quilliam, especialista em Oriente Médio do centro de estudos britânico Chatham House, pontuou que tanto os EUA quanto Israel sabem que, se causarem algum dano no local, “o prejuízo em termos energéticos seria irreversível”.

Quilliam também disse que, com o fechamento do estreito de Hormuz, um ataque a um ponto tão vital para a economia global seria pouco eficaz em termos estratégicos. “O Irã é o 4º produtor de petróleo do mundo. Os preços do petróleo já estão atingindo níveis recordes, um resultado inesperado para os EUA quando iniciaram esse conflito”.

Segundo o analista, o preço do barril gira em torno de US$ 120 (cerca de R$ 620) e um ataque à ilha de Kharg poderia elevá-lo para cerca de US$ 150 (aproximadamente R$ 775). “E não seria um preço que depois cairia rapidamente”, observou o especialista.

A histórica ilha de Kharg

Desde os tempos do Império Persa, há mais de 2 mil anos, essa pequena ilha desempenha um papel estratégico no Golfo. Durante algum tempo, por possuir fontes de água, virou um porto importante para o intercâmbio comercial de alimentos e outros produtos na região.

A ilha de Kharg esteve sob domínio português e holandês nos séculos 16 e 17, quando consolidou sua reputação como porto de trocas comerciais impulsionado pela administração da Holanda.

No século 20, foi sede de uma prisão de segurança máxima e foi ali que se descobriu uma de suas principais vantagens: próxima à costa iraniana, a ilha possui águas profundas perfeitas para a navegação de petroleiros, ao contrário das águas rasas da costa.

Então, na década de 1950, durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, começou a construção de um centro de armazenamento e distribuição de hidrocarbonetos, que logo se tornou o principal ponto de exportação do país.

De fato, parte da infraestrutura da ilha pertenceu a empresas americanas, que operaram ali até a Revolução Islâmica de 1979.

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