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Livro mostra mulheres que construíram a identidade de SP – 30/03/2026 – Andanças na metrópole

by Silas Câmara

As mulheres quase sempre foram apagadas da história. Em São Paulo não foi diferente. O protagonismo da maioria delas se limitou ao lar e ao cuidado com os filhos. Entre os séculos 16 e 19 eram pouquíssimas as que se sobressaíam na sociedade para se transformarem em agentes de mudança. Raras conseguiram quebrar as barreiras de opressão erguidas pelos homens.

No seu livro “A História Segundo Elas – Protagonismo e Permanência: as Trajetórias Femininas que Estruturaram São Paulo” (Editora Afluente), o pesquisador Lincoln Paiva elenca alguns desses casos. Apresenta uma lista de 57 mulheres que no decorrer de 500 anos fizeram a diferença para construir a identidade da cidade e tiveram forte influência sobre a população de seu tempo.

Nos primórdios da civilização brasileira aparecem nomes ilustres como o da indígena Bartira, originalmente Mbicy, filha do cacique tupiniquim Tibiriçá, sua irmã Terebé e a fundadora da vila de Santana do Parnaíba, Susana Dias. As três foram determinantes no estabelecimento da política de alianças que determinaram a consolidação do território de São Paulo de Piratininga. Bartira foi mulher do português João Ramalho, o homem mais poderoso da região no início da colonização.

“A formação paulista não se organiza a partir de instituições formais, mas de alianças que garantem circulação, permanência e legitimidade na ocupação”, diz Paiva. “Nesse contexto, a ação feminina não se apresenta como exceção nem como apoio secundário, mas como elemento estruturante da própria fundação.”

Nos primeiros 300 anos de história, as referências a personagens do sexo feminino eram escassas nas atas da Câmara Municipal de São Paulo, importante fonte da obra de Paiva. Constam no livro apenas 12 mulheres desse período. Na sequência das já citadas surgem as primeiras comerciantes, como a vendedora pública Francisca Roiz, apelidada de “Cigana”, a escravizada Josepha de Moura, autorizada a comercializar pão de trigo pelas ruas, e a paneleira Sinhá Thereza.

“Nas pesquisas constatei que a história de mulheres nunca era registrada, até porque elas não figuravam entre a elite institucional e política da cidade”, afirma. “Sempre foi dada preferência aos homens, conquistadores e guerreiros, mas elas, quando os bandeirantes saiam, ficavam na vila cuidando da roça, das fazendas, das casas, dos filhos e detinham o poder econômico.”

A mulher mais notável do século 19 foi Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, amante de dom Pedro 1o, que teve uma vida marcada pela violência doméstica, pela ruptura dos padrões e pelo amor à cidade. Foi uma agregadora social e benfeitora, hábil negociadora e gestora de sua fortunae destinou recursos, por exemplo, para causas nobres, como, por exemplo, a instalação da capela do Cemitério da Consolação.

Outros personagens do sexo feminino que marcaram o período e aparecem no livro, estruturado como um almanaque, foram Virgilina de Souza Salles, editora da Revista Feminina e primeira mulher jornalista do Brasil, a escravizada Maria Punga, pioneira na venda de cafezinho nas ruas de São Paulo, a abolicionista e fundadora de escolas Anália Franco, a ativista Pérola Byington, empenhada no combate à mortalidade infantil, e a advogada Maria Augusta Saraiva, primeira aluna da faculdade de Direito do Largo São Francisco.

No século 20, o número de mulheres empoderadas cresce e começa com as anarquistas Tecla Fabbri, Teresa Cari e Maria Lopes, operárias de fábricas têxteis, segue com a aviadora Thereza de Marzo e inclui cientistas e intelectuais como Bertha Lutz e Lélia Gonzalez e artistas como Patrícia Galvão, a Pagu, e a escritora Carolina Maria de Jesus. A lista poderia ser maior, mas dá uma boa ideia da contribuição feminina para a cultura e o desenvolvimento da cidade.


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