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Nelson Rodrigues, psicanalista da família brasileira – 30/03/2026 – Vera Iaconelli

by Silas Câmara

Assistir à montagem de “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues, no Teatro Oficina é um ato de celebração. Templo do teatro brasileiro e endereço obrigatório, o Oficina resiste à deterioração programática do centro de São Paulo para fins de especulação. Entrar nele, disputando lugares com uma plateia cativa, faz parte da mágica de se sentir tão implicado com a encenação quanto a trupe de artistas que se vai ver.

A versão da diretora Monique Gardenberg é um deleite para os aficionados pela obra de Rodrigues, explorando os recursos sensoriais sem deixar de saborear o incrível texto. Para isso, o elenco é fundamental. Poucas vezes se vê no teatro uma combinação tão superlativa de talentos de diferentes gerações, escolas de interpretação e veículos de comunicação produzindo um espetáculo no qual cada artista se mostra absolutamente necessário.

A interpretação de altíssimo nível é mantida ao longo de toda a peça, num jogo de frescobol no qual a bola nunca cai. O amor pelo teatro rodrigueano divide o espaço com a paixão por José Celso Martinez Corrêa, que fez do Oficina a extensão de seu corpo. A devoção ao público, em todas as acepções da palavra, se dá no entroncamento dessas duas paixões. Sorte da plateia, que sai melhor do que entra, como poucas experiências são capazes de proporcionar nos dias de hoje.

No momento em que o Brasil se volta para o reconhecimento da qualidade do seu cinema, devemos lembrar que sua fonte primária é o teatro, celeiro de talentos, motivo de orgulho nacional.

Temas como desejo interditado, incesto, pulsão de morte, o feminino irrefreável, o ódio materno e filial, a repetição, a culpa —tão centrais à teoria psicanalítica— reaparecem na peça, diretamente ligados à hipocrisia familiar. A família, esse tapete embaixo do qual a modernidade pretende esconder a condição humana, é levantado com requintes de humor, crueldade e erotismo próprios da paleta do autor. Onde o recalque opera sem trégua e o sintoma e a repetição nunca são escutados, a tragédia comparece como destino inexorável, provando que não somos senhores em nossa própria casa, como dizia Freud.

Tragédia grega contemporânea, que se vê ainda mais necessária com a ascensão do discurso conservador da ultradireita no mundo, “Senhora dos Afogados” mostra-se atualíssima quase 80 anos depois de ter sido escrita, em 1947 (encenada pela primeira vez em 1954 e censurada em seguida).

O mundo capitalista, fundado sobre os alicerces da família burguesa, incapaz de repensar suas bases, repete exaustivamente as tragédias que diz querer evitar. Projetando nos demais núcleos familiares seus próprios dilemas mal resolvidos, as famílias hegemônicas tocam o terror onde não encontram seu espelho: famílias monoparentais, LGBTQIA+, pobres, negras, periféricas, adotivas…

O fechamento sobre si mesma, estratégia justificada como forma de proteção das “más influências”, produz a cena incestuosa e violenta que imputa aos outros. Tema também retratado em “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, outra obra-prima da literatura nacional.

Em tempos nos quais o corpo não comparece para além da imagem bidimensional das telas, a encenação de “Senhora dos Afogados” se revela urgente e nos obriga a perguntar: que família defendemos?


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