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Inovação é jazz – 31/03/2026 – Deirdre Nansen McCloskey

by Silas Câmara

Wynton Marsalis (n. 1962) é um grande trompetista, tanto no jazz quanto na música clássica, e um brilhante intérprete dos métodos e encantos desses estilos. Ele frequentemente aponta a improvisação como a definição de jazz. O saxofonista apresenta um tema, imediatamente o baixista o ouve e acompanha, o pianista escuta atentamente e responde, e o baterista, o tempo todo, oferece apoio, contrastes ou comentários sobre cada um. Mesmo no jazz composto, com música escrita, como nas bandas de swing de Duke Ellington, a improvisação tinha um papel, era muitas vezes ensaiada depois que acontecia e então escrita no papel.

Marsalis compara a improvisação a uma conversa entre amigos. Não é apenas “fazer o que você quiser”. Não é um individualismo descuidado, ansioso para falar, mas não para ouvir. Quando o jazz segue esse caminho, como aconteceu em alguns momentos na década de 1970, ele deixa de ser jazz e torna-se um ruído autoindulgente. Uma conversa entre marido e mulher é produtiva em amor e respeito quando cada um escuta atentamente o outro, generosamente, de forma amorosa e cooperativa.

As melhores conversas científicas ou acadêmicas são assim e, portanto, altamente criativas. Suspeito que todos os avanços no conhecimento surgem de conversas reais, entre duas pessoas como Watson e Crick ou dentro de uma cabeça com duas vozes como Einstein. Conversar é uma maneira de experimentar coisas, improvisar, desenvolver um tema que seu interlocutor acaba de apresentar. Se tudo o que fazemos é trocar discursos pré-elaborados, na política ou no jazz, nada de criativo está acontecendo. Informações estão sendo trocadas, pode-se dizer, e isso é bom. Mas se não escutamos e depois respondemos, nada de novo está sendo criado.

Escutar atentamente o que o outro diz é raro, de modo deprimente, entre acadêmicos e outros escritores, ansiosos para falar, mas não para ouvir. O monge americano Thomas Merton escreveu em 1949: “Se eu insistir em lhe dar a minha verdade e nunca parar para receber a sua verdade em troca, não pode haver verdade entre nós”. Recentemente, citei Merton para alguns amigos economistas, e eles se entreolharam, perplexos. “Como podem existir duas verdades?” Ora…

Marsalis e Geoffrey Ward escreveram um livro em 2008 que você deveria ler, “Moving to Higher Ground: How Jazz Can Change Your Life” [Subindo a um nível mais elevado: como o jazz pode mudar sua vida]. O jazz, disseram eles, é uma “explosão de criatividade consensual”. O mesmo acontece com a inovação na economia. Os líderes da antiga União Soviética detestavam o jazz, por considerá-lo uma manifestação da igualdade de permissão imposta de baixo para cima, que eles tanto odiavam. Eles impediam a importação de discos de jazz, que, assim como as calças jeans Levi’s, eram anticomunistas e liberais-permissivos, e, de todo modo, americanos.

Por outro lado, os comunistas adoravam o balé imposto de cima para baixo, maravilhoso, mas nada improvisado, desde que os bailarinos não se esbarrassem. E também adoravam a música orquestral imposta de cima para baixo, igualmente maravilhosa, mas que era apenas “ruído branco” se não fosse conduzida de um pódio mais elevado.

Nós precisamos de uma economia como o jazz –vibrante, não coreografada ou orquestrada de cima para baixo. Podemos anotá-la no papel mais tarde, para capturar a beleza noite após noite.

Mas sem improvisação está morta.


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