Não perco os obituários do The New York Times. Seus mortos, famosos ou não, são sempre fascinantes —ou talvez os obituaristas os tornem assim. Esta semana, morreu aos 105 anos, em Roma, Letizia Mowinckel, viúva de um diplomata americano, amiga dos costureiros europeus e consultora informal de moda da chique Jacqueline Kennedy, primeira-dama dos EUA com John Kennedy (1961-63) presidente.
Foi Letizia quem induziu Jackie a adotar os tailleurs Chanel que ela tornaria famosos —como o tailleur rosa com que estava ao lado de Kennedy quando ele foi morto a tiros no Lincoln presidencial, em Dallas, no dia 22 de novembro de 1963. A imagem de Jackie, horas depois, com o tailleur manchado de sangue, ao lado do vice Lyndon Johnson sendo empossado, ficou para a história. Nunca foi lavado e está hoje no Arquivo Nacional, em Washington.
Mas, já fora do radar do NYT, a biografia de Letizia seguiria fascinante. Entre 1967 e 1971, ela e seu marido, John Mowinckel, adido cultural na Embaixada americana, no Rio, foram um dos casais mais vistosos da Ipanema clássica. Numa época de enorme conturbação política, Mowinckel, festivo, boa praça, de sunga, bronzeado e falando perfeito carioquês, era tido divertidamente como espião da CIA pelos intelectuais e artistas, todos de esquerda, com quem confraternizava na praia e nas altas feijoadas que promovia.
Mesmo tendo atuado durante a Segunda Guerra na OSS, berço da CIA, Mowinckel era folclórico demais para ser espião. Dizia-se que a informação mais importante que repassara à agência fora a de que o líder dos comunistas brasileiros era Luiz Carlos Prestes. Talvez servisse mais para encobrir os espiões de verdade que pululavam na Embaixada.
Em 1969, ao decidir sequestrar um diplomata americano para atacar a ditadura, os rapazes da guerrilha cogitaram pegar Mowinckel. Mas logo concluíram que, com ele como vítima, ninguém levaria o sequestro a sério. Daí optaram pelo próprio embaixador Burke Elbrick. Apesar disso, Mowinckel não lhes guardou rancor.
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