O Rio assistiu, no fim de semana, a um espetáculo de cinismo fantasiado de ativismo. Um bar da cidade afixou um cartaz com a declaração de que israelenses e americanos “não são bem-vindos”. Diante da óbvia acusação de antissemitismo e xenofobia, defensores da medida alegam que não há “proibição” de entrada, apenas um “posicionamento político”. Como se a hostilidade declarada na porta fosse menos grave do que uma tranca na fechadura.
A distinção entre proibir e não dar boas-vindas é uma armadilha semântica perigosa. Ela higieniza o preconceito, transforma a exclusão em “direito de expressão”. Mas a história ensina que a barbárie raramente começa com decretos de proibição imediata. Primeiro torna o outro indesejado, sinaliza que aquele corpo, aquela origem ou aquela fé são elementos que contaminam o ambiente.
O argumento de que se trata de um protesto contra as ações de governos de Israel ou dos Estados Unidos não resiste a dois minutos de honestidade intelectual. Quando você mira no indivíduo pelo passaporte, não é debate sobre geopolítica, é segregação. É a mesma lógica perversa que vimos em uma delicatessen carioca, onde o dono despejou sobre uma cliente judia que “não aguentava mais judeus”. Não era sobre o gabinete de guerra em Tel Aviv; era sobre a pessoa ali, na frente dele.
O extermínio e a perseguição de judeus pelo mundo nunca começaram com a solução final. O capítulo da morte é sempre precedido pela introdução do desprezo. Começa com o “não compre aqui”, passa pelo “não se sente nesta cadeira” e se consolida no “você não é bem-vindo”. É a criação de uma atmosfera onde o outro é desumanizado a conta-gotas, até que sua exclusão total pareça, para olhos anestesiados, um passo lógico e aceitável.
É assustador ver setores que se dizem defensores de “espaços seguros” e de acolhimento aplaudirem o estabelecimento de zonas de exclusão baseadas em nacionalidade ou etnia. Aceitar a retórica de que “não dar boas-vindas” é algo inofensivo é ignorar que o gueto foi o estágio final de um processo que começou com cara feia e placas de sinalização.
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