O Irã concordou em permitir a passagem de navios pelo estreito de Hormuz, mas o tráfego está bem abaixo do normal, já que 20% da produção mundial de petróleo e gás é escoada pela região. Segundo o monitor marítimo Marine Traffic, apenas duas embarcações passaram pelo local nesta quarta-feira (8), horas após ser anunciado o cessar-fogo de duas semanas envolvendo EUA, Israel e Irã.
“O navio NJ Earth, de propriedade grega, cruzou o estreito às 8h44 (horário de Greenwich, 5h44 de Brasília), enquanto o Daytona Beach, de bandeira liberiana, transitou mais cedo, às 6h59 (3h59 de Brasília), pouco depois de partir de Bandar Abbas às 5h28 (2h28 de Brasília)”, informou o MarineTraffic em post no X (antigo Twitter).
O rastreador de navios Kpler, dono do MarineTraffic, informou que cerca de 187 navios-tanque carregados transportando 172 milhões de barris de petróleo bruto e produtos refinados estavam flutuando dentro do estreito nessa terça-feira (7). A maioria dos navios com carregamento de petróleo e gás permanece ancorada no golfo Pérsico, de acordo com o site especializado em navegação LSEG.
Com mais de 1.000 embarcações oceânicas presas dentro do golfo, provavelmente levaria mais de duas semanas para eliminar o acúmulo mesmo em condições normais, avaliou Daejin Lee, diretor global de pesquisa da Fertmax FZCO. “Uma janela de 14 dias é simplesmente curta demais para restaurar o nível de confiança necessário para desfazer completamente a incerteza, particularmente para rotas de carregamento do golfo Arábico”, comentou.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que uma das condições impostas pelo regime foi ser responsável pela coordenação da passagem dos navios no estreito, desde que os ataques fossem cessados por israelenses e norte-americanos. Segundo o ministro, Teerã interromperia os contra-ataques e forneceria passagem segura em coordenação com suas forças armadas “e com a devida consideração das limitações técnicas”.
Para a analista Ana Subasic, da Kpler, a retomada do tráfego com duas embarcações pode animar outras empresas. “O trânsito do NJ Earth pode ser um sinal inicial de movimentação, mas ainda é cedo demais para dizer se isso reflete uma reabertura mais ampla motivada pelo cessar-fogo ou uma exceção previamente aprovada”, disse à agência de notícias AFP.
O navio de propriedade grega manteve seu sinal de transponder ligado enquanto transitava pelo estreito por uma rota aprovada pelo Irã próxima à Ilha de Larak, utilizada pela maioria das embarcações que cruzaram a via marítima nas últimas três semanas. A AFP não conseguiu confirmar imediatamente o destino do navio.
Desde que a guerra começou, em 28 de fevereiro, a passagem por Hormuz foi praticamente paralisada. Segundo dados da Kpler, 307 navios passaram pelo local entre 1º de março e 7 de abril, uma queda de 95% em relação ao tráfego em tempos de paz.
EMPRESAS ESPERAM POR SEGURANÇA
Jakob Larsen, diretor de segurança da associação de navegação Bimco, disse que o setor aguarda detalhes técnicos dos EUA e do Irã antes de liberar o envio de embarcações. “Deixar o Golfo sem coordenação prévia com os EUA e o Irã implicaria risco elevado e não seria aconselhável”, afirmou. Durante o conflito, ao menos 18 embarcações foram atingidas por bombardeios supostamente vindos do Irã.
Duas das maiores empresas de transporte marítimo mostraram cautela e devem aguardar pelo anúncio de medidas de segurança que garantam a passagem pelo estreito. “Neste momento, adotamos uma abordagem cautelosa e não estamos fazendo nenhuma alteração em serviços específicos”, declarou a Maersk em comunicado enviado à agência de notícias Reuters.
“O cessar-fogo pode criar oportunidades de trânsito, mas ainda não oferece plena segurança marítima, e precisamos entender todas as possíveis condições envolvidas”, analisou a empresa, que vem optando por represar os seus navios em quatro portos: Jeddah (Arábia Saudita), Salalah e Sohar (Omã), e Khor Fakkan (Emirados Árabes Unidos). Eles estão recebendo as cargas antes de transportá-las por terra até destinos em toda a região do golfo.
A Hapag-Lloyd afirmou que o tráfego normal deve ser restabelecido entre seis a oito semanas. “Mesmo que um cessar-fogo tenha sido acordado durante a noite, eu diria que é justo afirmar que o conflito no Oriente Médio ainda está prejudicando severamente o transporte marítimo, mas também as cadeias de suprimentos”, disse o CEO da Hapag, Rolf Habben Jansen, em resposta a clientes nesta quarta.
PAÍSES DISCUTEM PRÓXIMOS PASSOS
A OMI (Organização Marítima Internacional), agência da ONU responsável pela segurança no mar, afirmou na quarta-feira que está trabalhando em um mecanismo para garantir a “segurança do trânsito” pelo estreito de Hormuz. O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que cerca de 15 países já trabalham em conjunto para estabelecer como será feita facilitada a retomada do tráfego pelo estreito.
“Cerca de 15 países estão atualmente mobilizados e participando do planejamento, sob a liderança da França, para viabilizar a implementação desta missão estritamente defensiva em coordenação com o Irã, a fim de facilitar a retomada do tráfego”, declarou Macron. “Nosso desejo neste contexto é ter a garantia de que o cessar-fogo inclua plenamente o Líbano”, complementou o presidente.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou nesta quarta que o país ajudará neste processo. “Vamos carregar suprimentos de todos os tipos e simplesmente ‘ficar por perto’ para garantir que tudo corra bem”, afirmou em post publicado na sua rede social Truth Social. “Haverá muita ação positiva! Muito dinheiro será ganho. O Irã pode iniciar o processo de reconstrução”, disse o republicano, que não deu maiores detalhes sobre como será feito esse processo.
Os governos do Reino Unido e Coreia do Sul informaram que estão trabalhando junto às empresas para planejar a melhor forma de garantir o embarque seguro dos navios. Já a Itália descartou a participação em uma eventual coalizão para ajudar na patrulha da região. “Não está na pauta. Já dissemos que não enviaremos navios a menos que haja uma iniciativa das Nações Unidas”, declarou o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini.
A Comissão Europeia se recusou a comentar quais medidas devem ser tomadas para garantir a segurança do tráfego por Hormuz. “Recebemos a notícia do cessar-fogo. Estamos comemorando. Como a Alta Representante (Kaja Kallas) disse, temos uma janela em termos de mediação que precisa permanecer aberta, e a partir daí seguimos em frente”, afirmou o porta-voz do braço executivo da União Europeia, Anouar El Anouni.