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A Comissão Federal de Comunicações dos EUA anunciou na quinta-feira (2) que planeja proibir a importação de equipamentos fabricados pelas chinesas Huawei, ZTE, Hytera, Hikvision e Dahua. Desde 2021, as cinco constam na chamada “lista coberta” da agência, que alega riscos à segurança nacional.
Em 2022, Washington já havia impedido a aprovação de novos modelos criados pelas empresas. Agora, a proibição deve abranger também equipamentos com autorização anterior à ordem original.
A FCC abriu consulta pública e afirmou que poderia oficializar o veto rapidamente, “para evitar uma corrida às importações”. Informou também que equipamentos já adquiridos por consumidores poderiam continuar a ser usados.
Virtualmente excluídas do mercado americano há pelo menos sete anos, as empresas são líderes no resto do mundo. Segundo o grupo de pesquisa Dell’Oro, a Huawei, por exemplo, controla 40% do mercado global de equipamentos de telecomunicações, enquanto a ZTE é responsável por cerca de 14%.
Já a Hikvision é a líder absoluta no mercado global de câmeras de segurança, com 23%, quase o dobro da segunda colocada, a sueca Axis Communications (que detém cerca de 13%). A empresa também vem se expandindo em vários outros setores como a robótica industrial, eletrônica automotiva, sensores de raio-x e exames de imagem médico.
A proposta integra uma série de restrições recentes. Em dezembro, a agência proibiu drones chineses e, no mês passado, bloqueou novos roteadores domésticos fabricados na China. A Embaixada chinesa em Washington não comentou o caso até agora.
Por que importa: A proposta transforma uma restrição prospectiva em retroativa, o que muda a natureza do instrumento regulatório americano. Até agora, países como o Brasil podiam manter Huawei e ZTE em redes existentes sem fricção direta com Washington. Um precedente de banimento retroativo cria pressão para que parceiros revisem contratos e concessões já firmados sob risco de isolamento em cadeias de fornecimento e inteligência controladas pelos EUA.
pare para ver
“Câmera de Vigilância”, obra em mármore do artista chinês dissidente Ai Weiwei. Responsável pelo design do famoso estádio olímpico “Ninho do Pássaro” em Pequim, ele acabou entrando em rota de colisão com o governo chinês e hoje vive exilado na Europa produzindo pinturas e esculturas de protesto contra a China. Saiba mais sobre Ai Weiwei nesta reportagem publicada pela Folha aqui.
o que também importa
★ A líder do Kuomintang, principal partido de oposição em Taiwan iniciou sua viagem de seis dias à China. Cheng Li-wun lidera uma delegação de 14 integrantes e pode se reunir com Xi Jinping no que ela tem vendido para os taiwaneses como “uma jornada pela paz”. A despeito de críticas do governo liderado por Lai Ching-te do Partido Democrático Progressista, Cheng defende o diálogo para reduzir tensões no Estreito de Taiwan. Ela afirmou que o objetivo da viagem será mostrar que há espaço para negociação dos dois lados do estreito.
★ A China e a Rússia vetaram resolução do Conselho de Segurança da ONU que incentivava a proteção da navegação no Estreito de Hormuz. Proposto pelo Bahrein, o texto teve 11 votos a favor e dois contrários, além de duas abstenções. Moscou e Pequim disseram que a medida era enviesada contra o Irã. Os EUA criticaram o veto e pediram apoio para garantir a segurança da rota. O estreito é parte vital da rota pela qual um quinto do petróleo global é escoado e o fechamento aconteceu após o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã.
★ O líder chinês Xi Jinping pediu que o país acelere a construção de um novo sistema energético em meio à alta global dos preços de energia. Segundo a TV estatal, ele declarou que quer expandir hidrelétricas e fazer “avanços seguros” em energia nuclear, além de manter a queima de carvão mineral como base do sistema energético. A China vem prometendo há décadas reduzir o uso de carvão devido ao seu impacto nocivo na qualidade do ar e nas metas de mitigação das mudanças climáticas, mas Xi reiterou que o uso não vai desviar Pequim de investir em uma matriz mais limpa e diversificada.
fique de olho
O DeepSeek vai desenvolver seu próximo modelo V4 para rodar exclusivamente em chips da Huawei, segundo o site The Information que citou fontes da empresa.
A empresa de IA passou meses reescrevendo partes do código com engenheiros da Huawei e da fabricante Cambricon para garantir a compatibilidade com hardware doméstico. Assim, excluiu a Nvidia do processo, negando à empresa o acesso antecipado ao modelo que normalmente ela recebe antes de grandes lançamentos.
Alibaba, ByteDance e Tencent já encomendaram centenas de milhares de unidades do chip mais recente da Huawei em antecipação ao lançamento, previsto para as próximas semanas.
Os modelos anteriores do DeepSeek, o V3 e o R1, foram treinados em chips da Nvidia. Esse quadro mudou quando Washington passou a exigir licença para exportar seus chips à China. A medida gerou um prejuízo estimado em US$ 4,5 bilhões (R$23,25 bilhões) à empresa.
Por que importa: A aposta da DeepSeek no hardware doméstico é o teste mais concreto até agora da premissa central da política americana de controle de exportações de chips, a de que a China não conseguiria desenvolver modelos de IA de ponta sem tecnologia ocidental. Se o V4 entregar desempenho competitivo, essa premissa vai ruir e Washington precisará rever os instrumentos com que tenta frear o avanço tecnológico chinês.
para ir a fundo
A Tsinghua, em parceria com a UFRJ, Universidade do Chile e Universidade do Pacífico no Peru, lançou nesta semana o Desafio China-América Latina para Redução da Pobreza. A competição quer ouvir soluções criadas por estudantes da China e da América Latina que contribuam para a redução da pobreza global através de colaboração intercultural. Os vencedores vão ganhar uma viagem de estudos para a China. Saiba mais aqui.
A divisão de Ásia da organização Human Rights Watch está recrutando um pesquisador sênior para assuntos da China. O selecionado vai ser responsável por monitorar e documentar o estado dos direitos humanos no país asiático, coordenando esforços com a imprensa, academia, vítimas e diplomatas. É necessário ter experiência mínima de seis anos em temas relativos à China e um diploma de pós-graduação em áreas como jornalismo, relações internacionais, direito, ciências sociais. As candidaturas são aceitas até o dia 6 de maio aqui.
Estão abertas as inscrições para o programa de bolsas da Universidade de Medicina Chinesa de Hebei, com oportunidades para alunos e professores de língua chinesa. Destinadas a médicos formados (ou em vias de conclusão do curso), a bolsa tem duração variável de quatro semanas ou um semestre e o curso aborda idioma, cultura e medicina tradicional chinesa. Interessados podem ler o edital aqui.