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Não sabia que ‘de chico’ vem de chiqueiro? Este não é o ponto – 11/04/2026 – Marina Izidro

by Silas Câmara

Na semana passada, eu precisava comprar uma vassoura. Entrei com meu marido em um desses mercadinhos de rua de Londres que vendem produtos variados. Ao chegarmos ao caixa, o atendente, que parecia não ser inglês, perguntou para ele: “Foi sua mulher que te falou para comprar, né?”. Surpresa e indignada, olhei para o homem e perguntei: “Por que você está falando isso?”. Meu marido rapidamente pagou e me tirou da loja, tentando fazer com que eu não estragasse o meu domingo. Em vão. Passei horas chateada por ter sido alvo de um ataque machista gratuito de um desconhecido, que associou uma vassoura a um objeto “de mulher”, algo inferior na visão dele.

Meu marido, solidário, concordou que o cara de pensamento tacanho e ultrapassado foi completamente sem noção. Para mim, foi mais um episódio sexista que nós, mulheres, aturamos com frequência. Talvez o homem tenha pensado que foi brincadeira? Bem parecido com o que acontecera no Brasil, na fala de Neymar sobre o árbitro “estar de chico”.

Nos últimos dias, vi e li análises sobre o caso. Achei inacreditável ver homens se achando no direito de dar opinião, dizendo que não foi nada demais, e mulheres, incluindo uma ex-jornalista, chamando as que se incomodaram de mal-amadas.

Relutei a escrever sobre o tema. O exagero de tópicos ligados a Neymar tem me dado preguiça. E, como disse o Barão de Itararé, de onde menos se espera, daí é que não sai nada. Achar que o jogador vai mudar seria como acreditar que Trump faria o mesmo. Horas atrás, foi publicado no YouTube um vídeo de Neymar em que uma amiga diz a ele o óbvio. Em nenhum momento ele pediu desculpas, falou que não vai fazer de novo —veja, dizer que não quis ofender mulheres não é o mesmo que estar arrependido ou compreender o que aconteceu.

Mas esta coluna não é sobre Neymar. É sobre como esta é outra oportunidade que o esporte nos dá para aprendermos que esse tipo de fala —assim como as racistas ou contra homossexuais— é inadmissível.

Como muitos, eu também não sabia que a expressão “de chico” vem de chiqueiro, algo que associa a menstruação a algo sujo. E esse não é o ponto. Não é preciso conhecer a origem do termo para admitir que é errado usar uma característica das mulheres como uma forma de nos diminuir, ou a um homem.

Como se nós, por algo tão normal, fôssemos inferiores. É igual ao “estar de TPM” ou “isso é coisa de menina”. Não é brincadeira e não pode ser normalizado, porque, em situações menos graves, exclui mulheres de ambientes esportivos e sociais. Nas extremas, vira violência física e feminicídio.

O lado positivo é que essa fala machista fez muitos homens refletirem, ouvirem as mulheres e se posicionarem a nosso favor. Mas o que mais me deixou frustrada é ver como ainda há tanta dificuldade em sequer reconhecer que dizer uma besteira dessas é um problema. Me entristece pensar que parte do Brasil está tão parada no tempo que ainda discute, em 2026, se isso é errado. É impossível evoluir como sociedade se seguimos dando desculpas, chamando de mimimi (palavra mais rasa, impossível), diminuindo o sentimento das mulheres quando isso acontece.

Aliás, é só porque temos órgãos reprodutivos e menstruamos que temos o poder de gerar vidas. Sem isso, nenhum de nós, nem o mais machista, estaria aqui.


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