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Sacrifiquei minha carne em calças skinny e sutiãs com aro – 11/04/2026 – Giovana Madalosso

by Silas Câmara

Como uma gueixa perdida em outro hemisfério, minha mãe calça 36, mas só usa sapatos 35. Meus pés nunca foram reprimidos, minha mão, quase. Quando eu tinha cinco anos, parentes sugeriram que meus pais amarrassem a esquerda para que eu desenvolvesse a outra, já que não era bem-visto ser canhota por aquelas bandas.

Minha magreza era problema. Meu nariz era problema. Com 14 anos, ganhei algumas curvas, mas não foi o bastante. Um colega de escola disse para todos ouvirem: “A Giovana é como um camarão, pra comer tem que tirar a cabeça”. Não me lembro de condenarem o que ele falou, mas de me recomendarem uma plástica para diminuir o nariz.

Não era só o nariz.

Eu era bailarina e minha pele não era branca o bastante. Minha magreza não era magra o bastante. Para outros, minha boca era roxa demais. Minhas mãos, grandes, não eram consideradas femininas. Deveriam ser colocadas para atrás ou dentro dos bolsos na hora das fotos.

Meus pés também deveriam ser escondidos. Tinham calos do balé. Um pouco de joanete. “Homens não gostam de joanete”, ouvi várias vezes. Minha unha do dedão, considerada grande por algumas pessoas, não deveria ser pintada de cores fortes para não chamar a atenção.

Durante anos, alisei os cabelos. Quase incendiei a minha casa por causa de uma chapinha. Derrubei a luz de toda uma pousada por causa da voltagem errada de um secador. Deixei de ver estrelas no sereno para não ficar com frizz nos cabelos.

Quando morei fora do Brasil, ganhei peso. Em inglês meu corpo era bonito, em português a minha beleza foi traduzida para “poita” e “baleia”.

Como se a minha carne fosse uma oferenda, sacrifiquei-a em calças skinny, saltos altos, saltos finos, cintas modeladoras, sutiãs com aro, corpetes, vestidos apertados, calcinhas que pressionam a barriga, fios encravados na bunda, rendas ásperas na vulva.

Fui queimada com cera quente. Fiquei com a pele vermelha. Levei tapas da depiladora para aliviar a ardência. Tive meu buço arrancado com pinça e fio egípcio. Passei frio para exibir as pernas e o decote. Fiz regimes que prejudicaram a minha saúde. Enchi meu corpo de remédios e adoçantes possivelmente cancerígenos.

Quando finalmente cheguei ao peso considerado ideal para a minha altura, ouvi que estava magra demais. Que meus seios tinham ficado murchos. Dois saquinhos de chá que precisavam ser levantados ou escondidos.

Passei a usar sutiã com enchimento. Não foi o bastante. Me sugeriram colocar silicone. Coloquei. Fiquei com cicatrizes, perdi um pouco de sensibilidade nos mamilos. Me arrependi —eu nunca quis ter seios grandes, eu só queria me amar.

Um tempo depois, engravidei. Tive minha barriga cortada por um bisturi. Meus seios foram sugados, feridos e rompidos por uma pequena boca faminta, mas as pessoas só perguntavam quantos quilos ganhei na gravidez e quantos eu já tinha perdido.

Ser mãe de mulher me transformou. Ler “O Segundo Sexo” me transformou. Apanhar de um homem que acreditava ser dono do meu corpo me transformou. Ele não era dono do meu corpo, tampouco eu. Eu só passei a ser aos 38 anos.

Doeu nascer de novo, mas depois foi um alívio. Desde então, tenho um sonho: que minha mãe tire os sapatos 35 e venha dançar descalça comigo.


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