Quando o diretor de voo da Nasa, Zebulon Scoville, estava trabalhando em um turno durante o voo de teste não tripulado da Artemis 1, em 2022, ele percebeu que a agência não estava transmitindo ao vivo de forma consistente a jornada da espaçonave Orion até a Terra.
“Eles disseram: ‘Bem, não temos largura de banda, precisamos baixar todos esses dados do veículo e de engenharia’”, lembrou Scoville. “E eu pensei: errado.”
“Este programa vai acabar se as pessoas não comprarem a ideia e não embarcarem conosco.”
A Nasa acabou conseguindo transmitir ao vivo, com baixa largura de banda, a missão não tripulada de 2022.
E, quando ela terminou, funcionários nomearam o veterano da agência como o “czar de imagens” para aumentar o engajamento.
Ele disse à AFP que passou dois anos trabalhando em toda a agência para descobrir como levar melhor o público às novas missões lunares da Nasa.
Isso incluiu a inclusão de um sistema de comunicações ópticas à espaçonave Orion, um laser que transmitia para uma estação terrestre na Terra, enviando vídeo em streaming com resolução mais alta.
Ao longo da viagem da Artemis 2, que começou em 1º de abril e se encerrou na sexta-feira (10), a Nasa manteve uma programação ao vivo em sua própria plataforma de streaming e nas redes sociais.
Isso, combinado com streamers independentes e noticiários de TV, rendeu milhões de visualizações.
E como disse a Lori Glaze, diretoria de Missão de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração, na sexta-feira: “A todos os nossos novos seguidores por aí, fiquem ligados”.
Nasa na Twitch
De publicações em redes sociais recortadas de eventos transmitidos ao vivo com os astronautas a um extraordinário portfólio de fotografias, os espectadores puderam ver de tudo sobre a Artemis 2.
Instituições, incluindo museus, organizaram festas para assistir ao pouso da Artemis 2, e alguns professores integraram o lançamento às suas aulas.
Alex Roethler, professor de física de Wisconsin, disse que assistir à missão ajudou seus alunos a ficarem mais engajados e fez as aulas parecerem mais reais.
“Adoro ter a transmissão ao vivo disponível e também acho legal que eles usem o Twitch”, afirmou Roethler, referindo-se a um site de streaming de vídeo popular entre gamers. “É uma plataforma que mais alunos nossos usam.”
A própria tripulação foi parte fundamental da narrativa.
Durante o sobrevoo lunar de quase sete horas, os astronautas Christina Koch, 47, Victor Glover, 49, Jeremy Hansen, 50, e Reid Wiseman, 50, fizeram descrições das características da superfície lunar e deixaram os cientistas em Houston boquiabertos.
Com a Artemis 2, houve “apenas sorrisos e demonstrações genuínas de emoção por parte da Nasa, que às vezes teve um histórico de ser um pouco fria”, disse Scoville.
“Não tem problema pular de alegria e uivar para a Lua“, acrescentou.
Paralelos entre Apollo e Artemis
Os Estados Unidos não enviavam astronautas ao redor da Lua desde 1972, quando houve a Apollo 17, a última do famoso programa espacial que levou seres humanos a caminhar na superfície lunar.
Na preparação para o voo, a Nasa enfrentou tanto uma população indiferente quanto um ambiente midiático fragmentado.
A agência espacial teve que disputar atenção nas mídias tradicionais e nas redes sociais de uma forma que a era dos três canais de TV da Apollo jamais experimentou. O pouso na Lua da Apollo 11, em 1969, teve aproximadamente um quinto da população mundial acompanhando.
No entanto, apesar de todas as qualidades míticas da Apollo, Jack Kiraly, diretor de relações governamentais da Planetary Society, disse que a nostalgia talvez “encubra alguns dos problemas que o programa enfrentava na época”.
“Tudo o que levou até aquele momento era, na verdade, amplamente impopular entre o eleitorado americano, entre o público em geral”, disse Kiraly à AFP.
O despertar do nerd espacial
Antes da Artemis 2, Scoville teve conversas com Wiseman, comandante da Artemis 2, nas quais refletiram sobre os paralelos entre a missão Apollo 8, em 1968, e a atual missão.
Em 1968, os Estados Unidos estavam politicamente divididos e em guerra. Quase 60 anos depois, não mudou muita coisa.
“Estamos assistindo ao noticiário hoje, com guerras, com divisão. Todo mundo está simplesmente ansiando por algo bom acontecer”, disse Scoville.
Em uma recente entrevista, direto do espaço, Wiseman disse que a única fonte de notícias durante a missão eram suas famílias, que afirmaram que o programa Artemis cativou pessoas no mundo todo.
O astronauta afirmou que esperava que a viagem pudesse “fazer o mundo parar” para apreciar a beleza do nosso planeta e do Universo. “Acho que para as pessoas que decidiram acompanhar —e parece que foram muitas— isso aconteceu.”
Ao longo de toda a jornada, os quatro astronautas enfatizaram como a Terra parece unificada vista de longe —uma reflexão que eles esperavam incutir na consciência pública.
“As pessoas estão querendo despertar o nerd espacial que existe nelas”, disse Scoville. “Isso é apenas um vislumbre do que está por vir.”