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‘Sequestro’ traduz bem uma negociação, mas exalta herói – 14/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Na primeira temporada de “Sequestro”, no Apple TV, Sam Nelson, vivido por Idris Elba, é um negociador corporativo que se vê a bordo de um avião sequestrado e almeja, com suas habilidades, persuadir os “causadores” —termo técnico para falar de sequestradores.

Nós, negociadores policiais, também temos como objetivo persuadi-los para atingir essa mudança de comportamento. Nessa ciência, o mantra é: “A arte de ouvir é muitas vezes ofuscada pelo desejo de falar.” Exercitamos a escuta ativa durante todo o processo de negociação, seja num sequestro com reféns, seja com uma pessoa com propósito suicida.

O primeiro ponto-chave é compreender a motivação para, então, selecionar as técnicas —afinal, não é apenas uma “conversa”.

É comum acreditar que negociação policial e a corporativa são a mesma coisa. Não são. Possuem semelhanças, mas também diferenças profundas nas técnicas, táticas, gestão do tempo e postura emocional.

Sam Nelson, desde o início, percorre toda a chamada escada da mudança comportamental, embora isso só fique claro próximo ao final da série. A cada capítulo, ele “sobe um degrau”. Cria empatia com a finalidade de estabelecer “rapport”, isto é, uma conexão com os causadores, para então influenciá-los. Nesse aspecto, a produção mostra ter tido um bom apoio técnico.

À crise principal, o sequestro da aeronave, seguem-se outras —entre os mentores do sequestro deste voo entre Londres e Dubai, entre os passageiros e mesmo com a companhia aérea, ministros e outras figuras importantes que são acionadas. Nossa obrigação é não deixar que a crise central escale para patamares maiores, como ocorre na série, pois vidas estão em risco.

Preferencialmente, o gerente da crise deve possuir conhecimento específico, e a presença de um negociador é fundamental, sobretudo num caso como o da série, em que não há possibilidade de contato direto com os causadores.

No campo da ficção, “Sequestro” sabe sustentar um ritmo que aposta na tensão contínua, entre gritos, disparos e outras articulações narrativas que deixam o espectador preso. Mas, em meio a isso, romantiza o personagem, tratado como um herói inteligente.

No nosso cotidiano, isso não existe. O negociador é apenas um dos componentes de uma equipe habilitada para diferentes alternativas táticas.

No fim, somos conhecidos como diplomatas do caos. Estabelecemos comunicação onde só existe violência. Criamos vínculo mesmo diante de hostilidade aberta, restabelecemos a esperança em contextos de desespero. Somos humanos treinados, negociando com humanos colapsados, para salvar humanos em risco.

Sobre como se dá o desfecho de “Sequestro”, caberá ao espectador descobrir. Mas já há uma segunda temporada no ar, dessa vez, num metrô em Berlim.

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