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Carta aberta à brasileira que fez suicídio assistido – 17/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

by Silas Câmara

Luciana Dadalto, advogada e presidente da associação Eu Decido, que defende o direito à morte assistida no Brasil, escreveu uma carta aberta a Célia Maria Cassiano, brasileira que viajou à Suíça para poder fazer o suicídio assistido.

Célia, que era professora de história da arte, tinha doença do neurônio motor, uma condição degenerativa e progressiva. Ela morreu no dia 15 deste mês e publicou um vídeo em uma rede social sobre sua decisão.

Leia abaixo o texto de Luciana Dadalto.

Querida Célia,

Nossa última conversa foi quase como todas as outras: formal. Você me disse que havia conseguido resolver toda a documentação e que em breve iria para a Suíça. Você não me contou, no entanto, quando e nem para qual organização iria. Como presidente da Eu Decido, eu não pude te ajudar. É aquilo que eu te expliquei: a nossa associação não fornece meios para a morte assistida e nem intermedia tratativas com entidades internacionais. Nossa missão é buscar a legalização da morte assistida aqui no Brasil.

Para a minha sorte, tivemos uma conversa informal, um momento em que eu não estava exercendo o meu papel institucional. E você me contou sobre a sua história de vida, o diagnóstico, as dificuldades em fazer os médicos “acreditarem” que você estava lúcida. Me contou sobre os médicos que duvidaram do seu diagnóstico porque você “estava bem demais”, a médica paliativista que te ajudou a fazer suas diretivas antecipadas de vontade, mas disse que não te ajudaria em mais nada porque você tinha “ideias suicidas”. Me contou sobre o receio do que seus familiares achariam da sua decisão, o quão difícil estava viver perdendo diariamente as funcionalidades do seu corpo. Me contou do desejo de deixar um legado para o Brasil.

Este desejo, inicialmente, se traduzia num legítimo interesse em entender mais sobre a possibilidade de ajuizar uma ação pedindo que o Poder Judiciário brasileiro reconhecesse seu direito à morte digna. Você procurou uma advogada (defensora da autonomia em fim de vida), ela olhou seus documentos médicos, pediu para que alguns amigos médicos analisassem e te informou que não poderia aceitar seu caso: os tais amigos médicos disseram que você não tinha a doença que os documentos diziam ter —e sobre a qual seu corpo não deixava dúvidas.

Depois dessa conversa, voltamos a nos falar institucionalmente em dezembro de 2025. Como presidente da Eu Decido, te pedi para conceder uma entrevista para um veículo de imprensa que nos procurou, e você me disse que não queria se expor naquele momento. Mais pra frente, consideramos falar sob anonimato, mas você havia piorado muito, e toda a energia que restava era dedicada aos infindáveis trâmites burocráticos para ter a morte que você acreditava ser digna, na Suíça. E me disse: “no momento certo vou fazer um depoimento em vídeo a respeito.”. Este vídeo foi postado no seu Instagram no dia da sua morte: 15 de abril de 2026. Nele deu para sentir sua leveza, sua altivez e sua indignação por não ter direito a uma morte assistida em seu país.

Sabe, Célia, desde quando comecei a estudar sobre autonomia e dignidade no fim da vida, tive certeza de que queria ajudar pessoas como você a terem o direito à morte assistida no Brasil. Mas, para isso, precisaria entender muito bem os caminhos que os países que já permitem a prática percorreram. Inquieta, comecei pela Suíça; lá conheci pessoalmente todas as associações —inclusive, em uma delas acompanhei, na condição de pesquisadora, uma morte assistida.

Tornei-me especialmente próxima de uma dessas organizações —e quis o destino que fosse a mesma que viria a te acolher anos depois. A Dignitas é a mais antiga, mais conhecida e mais rígida de todas.

Lá em 2017, na minha primeira ida, tinha para mim que o estrangeiro com acesso ao procedimento na Suíça teria uma morte digna. Contudo, ao falar sobre essa minha percepção para um dos representantes da Dignitas, ouvi dele a seguinte resposta: “Eu não acho digno que para exercer o direito a uma morte pacífica uma pessoa precise viajar para outro país e morrer em uma cama que não é a dela, falando um idioma que não é o dela, comendo uma comida que não é a dela. O que vocês, que vivem em países em que a morte assistida é proibida, chamam de ‘dignidade’, para mim, é humilhação”.

Com o tempo, atravessada pelas minhas vivências, pelos meus estudos, por conversas com pessoas como você, eu reinterpretei essa resposta. Hoje, vejo a morte assistida na Suíça não como humilhação, mas como privilégio de poucas pessoas; privilégio de, diante de um sofrimento intolerável, poder ter um mínimo de dignidade na morte —mesmo em outra terra, em outra cama e em outro idioma. Porque para quem não tem nada onde nasceu, o mínimo, em outro país, é muito.

Graças à sua luta, à sua condição socioeconômica e aos seus amigos que te acompanharam você teve uma morte digna, Célia. E deixou um enorme legado para todos nós que acreditamos e lutamos diariamente para que, um dia, todas as brasileiras e todos os brasileiros que assim desejarem e se enquadrarem em critérios definidos por lei ou pela jurisprudência não precisem passar por tudo o que você passou para ir embora desta vida de forma que entendeu como digna.

Obrigada por sua generosidade.

Bom voo,

Luciana Dadalto.

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