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‘Pastiches e Misturas’ prova que o cinema pode ser arte – 17/04/2026 – Mario Sergio Conti

by Silas Câmara

A banalização de “À Procura do Tempo Perdido” é uma praga. O romance de Proust é longo e árduo —e os banais acertam ao dizer que tempo é dinheiro e que de dura chega a vida. Dá trabalho desenrolar suas frases enroscadas. Escoltar duquesas meses a fio requer curiosidade malsã. A escrita crítica atropela o pocotó da literatura pangaré.

Não se trata só de forma: no peito do romance desencantado bate um coração de pedra. Afora o amor neurótico do Narrador pela mãe, tudo o mais é negativo. A paixão não leva à felicidade a dois, e sim à angústia a um. A amizade é tola quimera. Não amamos mais ninguém quando amamos.

A mercantilização de tudo e todos, todavia, fez com que a melancolia do romance desse lugar a livros ligeirinhos sobre roupas e viagens de seu autor. Que ele virasse o escritor francês mais traduzido, o tema do maior número de teses universitárias da Europa. O Proust prêt-à-porter diz algo sobre a sociedade de consumo hoje, mas nada fala do seu vazio.

E olha que em “À Procura do Tempo Perdido” só a arte escapa do vazio. É por isso que o livro relata a gênese de uma obra única que termina assim que o Narrador começa a escrever o livro que o leitor vem de ler.

Na concepção de Proust, quanto mais abstrata a arte, maior a sua promessa de felicidade. A música, escreve, é o “exemplo único do que poderia ter sido –se não se houvesse inventado a linguagem, a formação de palavras, a análise de ideias– a comunicação entre as almas”.

Para ele, arte e cinema são antagônicos. “Alguns gostariam que o romance fosse uma espécie de desfile cinematográfico das coisas”, escreveu. “Essa concepção seria absurda. Nada se afasta mais daquilo que percebemos na realidade do que uma visão cinematográfica.”

Proust disse isso pouco antes de morrer, em 1922. O cinema ainda usava chupeta, mas sua restrição a ele não era de ordem tecnológica, e sim filosófica. No nitty-gritty, sustenta, o cinema capta aparências, não revolve o que a realidade deposita nas profundezas dos seres e da sociedade.

Embora o cinema tenha virado de ponta-cabeça desde então, a reflexão segue pertinente, ao menos no que tange a “À Procura do Tempo Perdido”. Passaram-se cem anos e não se fez um filme que, nem de longe, esteja à altura, espessura e fundura do livro, que seja arte à farta.

O italiano Luchino Visconti e o inglês Joseph Losey tentaram filmá-lo e desistiram. O alemão Volker Schlöndorff, a belga Chantal Ackerman, a francesa Nina Companeez e o chileno Raul Ruiz adaptaram alguns trechos. Ativeram-se ao enredo –à aparência da realidade, apud Proust–, não às digressões, análises, invenções, o que faz do romance O romance.

Pois bem, chegou a hora de um paulista lançar-se à aventura. O resultado é “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas“, obra do improvável Carlos Adriano. Com dois pós-doutorados, ele dirigiu 30 filmes em 35 anos, dos quais só um de ficção e dois longas-metragens. Os outros são cinepoemas, miniensaios, sondagens, experiências, tateios, curtas-metragens a contrapelo.

Destaque do Festival É Tudo Verdade, “Proust Palimpsesto” não se mete a transpor para a tela “Tempo Perdido” tal e qual. Almeja a alma livre da arte e amaldiçoa a letra morta do comércio. É radicalmente subjetivo, junta alhos e bugalhos, as barbaridades mesopotâmicas de Griffith em “Intolerância” com as bestialidades israelenses de Netanyahu em Gaza .

Como a sensatez é predicado dos fracos, e o proustiano é antes de tudo um forte, não tendo o raquitismo exaustivo dos euclidianos neurastênicos do litoral, o filme é ininteligível aos pobres de espírito. Ou se entra no clima ou os 103 minutos de “Palimpsesto” não terão fim. Adriano não veio ao mundo para facilitar a vida de ninguém. Pelo contrário.

A energia do filme brota da ideia de que o real e o irreal se amalgamam. Exemplo disso é o filminho de Proust no casamento da filha da condessa Greffulhe, modelo da duquesa de Guermantes. Sua descoberta, em 2017, foi festejada por ser o único registro de Proust em movimento.

Aí entrou em cena a aguerrida tribo dos proustianos em flor. Provaram por a+b que o moçoilo de bigodinho e chapéu coco não era Proust nem que a vaca tussisse. Ele tinha 33 anos na época, era um senhor macilento, de bigodaço à la Ruy Barbosa.

Em “Palimpsesto”, é mostrado em câmera lenta, fragmentado, de trás para a frente. Por ser fidedigno ou fictício? Carlos Adriano pode responder, porque só ele sabe o que é “palimpsesto”. Minto: Proust também sabia.


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