Começar uma semana de moda com desfile da Osklen, que exportou o estilo de vida dos cariocas bacanas para todo o Brasil, e terminar com Lenny Niemeyer, a maior referência de moda praia nacional, parece ter sido a atitude mais lógica e acertada da Rio Fashion Week.
O evento no Rio de Janeiro, que terminou neste sábado à noite, foi muito bem-sucedido —e, comentava-se à boca pequena, melhor e mais animado que as últimas edições da São Paulo Fashion Week— em dar a largada para reposicionar a capital fluminense no mapa dos fashionistas, depois de um hiato de mais de dez anos.
Desfiles lotados no meio da tarde de quarta-feira, como o da Aluf, e salas também cheias para ver marcas minúsculas, como Lucas Leão, provaram que há interesse do público em comparecer a uma semana de moda feita fora da principal cidade do país.
Há também designers com trabalhos já maduros mas que seguem evoluindo, a exemplo de André Namitala, da Handred, grife considerada por muitos como a que mostrou o melhor desfile do evento. Prestes a completar 15 anos, a casa carioca fugiu de todos os estereótipos do Rio em sua apresentação —algo soturna, carregada de marrons e cores mais fechadas, com uma pitada de rosa em peças aqui e ali.
Era claramente uma coleção de inverno, em que os modelos pareciam protegidos contra as intempéries, seja do clima ou do estado depressivo do mundo de hoje.
Dito isso, a primeira edição da Rio Fashion Week foi também um retrato do sistema de moda atual, em que a roupa nem sempre é o centro das atenções, contrário ao que deveria ser o propósito central deste tipo de evento.
Milhares de pessoas foram ao Pier Mauá para verem e ser vistas, fazerem vídeos para as redes, pegarem brindes dos patrocinadores ou apenas beberem com os amigos. Como se vai à um festival de música só pela ferveção, sem nem saber quais bandas vão tocar.
Nesta mesma chave do entretenimento, as marcas com dinheiro fizeram desfiles-espetáculo. A Misci mostrou a coleção nova no sambódromo, a Blue Man levou uma bateria de escola de samba para a passarela, a Adidas teve uma dupla de rap cantando num desfile que na verdade era uma ação de marketing para relançar um tênis dos anos 2000.
Estas diversões ajudam a construir o universo das marcas, mas também desviam a atenção da passarela. No caso da Misci, a etiqueta que tomou de assalto a moda brasileira nos últimos anos, a grandiosidade da Sapucaí fez com que parte da plateia tivesse certa dificuldade em ver as roupas devido à distância da posição dos bancos em relação aos modelos e pela iluminação do local, que deixava os looks no contraluz.
Foi uma pena, porque as roupas eram ricas em detalhes, como bordados feitos por Wendy Cao —que também trabalha para o ateliê da Chanel em Paris— ou apenas davam vontade de chegar mais perto, a exemplo das desejáveis botas caipiras confeccionadas em pele de peixe pirarucu. De todo modo, o desfile atesta a evolução de Airon Martin e sua equipe no desenho do vestuário.
Outro ponto foi a quase total ausência, nas passarelas, de corpos gordos ou mesmo dentro do peso considerado normal. Desfilaram modelos magras ou extremamente magras. Essa tendência já vinha se desenhando nas semanas de moda internacionais —que nunca abraçaram de fato a diversidade de corpos—, mas, com a popularização das canetas emagrecedoras e o revival da década de 1990 nos birôs de estilo, ela parece ter voltado para ficar.
A exceção foi a marca de Karoline Vitto: a designer catarinense, que começou a carreira em Londres, aporta agora no Brasil com sua costura para manequnis maiores. Quase toda a sua passarela foi formada por modelos de peso tido como normal ou gordo. Roupas justas mostrando as curvas e vestidos com fendas laterais deixando as gordurinhas à vista vieram combinadas com as bijuterias máxi de Carlos Penna. Vitto não exige das suas clientes que adaptem a silhueta às suas criações —a estilista desenha roupas para mulheres reais, não ideais.
Diante deste cenário, vale o questionamento —a moda precisa mesmo ser inclusiva, como cobram, ou os estilistas devem ter a liberdade total de escolha em relação ao tipo de corpo que desfila os desenhos de suas pranchetas?
O jornalista viajou a convite da Rio Fashion Week