O Telescópio Espacial James Webb segue desempenhando com sucesso sua missão de revelar os segredos dos primórdios do Universo, e desta vez a novidade vem com importante participação brasileira. Em um par de estudos, um grupo internacional de astrônomos identificou o que poderia ser descrito como um precursor dos atuais aglomerados de galáxias.
Esse objeto é conhecido pelo cifrado nome de catálogo TGSS J1530+1049, e o que as imagens do Webb revelam é um punhado de galáxias amontoado em uma região pequena do espaço, menor que o volume ocupado hoje pela nossa Via Láctea, numa época em que o cosmos tinha apenas 1,5 bilhão de anos. Hoje, para referência, ele tem 13,8 bilhões de anos, pelas melhores estimativas baseadas no modelo cosmológico padrão.
Esse objeto já chamava a atenção por ser uma fonte de rádio que parecia indicar a presença do que os pesquisadores chamam de núcleo galáctico ativo –em essência, o sinal de que uma galáxia tem uma parrudo buraco negro supermassivo em seu centro que está naquele momento deglutindo matéria vorazmente.
Como um dos objetivos centrais da astronomia hoje é descobrir como se formam esses buracos negros colossais e como se conectam com os processos iniciais da evolução do Universo, é sempre interessante estudar esses objetos –um interesse cultivado pela brasileira Catarina Aydar, hoje doutoranda no Instituto Max Planck, na Alemanha, e pelo holandês Roderik Overzier, hoje no Observatório de Leiden, desde que estiveram juntos no Brasil, ela na USP (Universidade de São Paulo) e ele no Observatório Nacional (no Rio de Janeiro), durante a pandemia.
Em seu programa de pesquisa, a dupla se emparceirou com outros pesquisadores e conseguiu tempo de observação no Webb para dar uma olhada mais caprichada no TGSS J1530+1049, e o que descobriram, além de determinar o fato de que ele de fato reflete a situação do Universo quando era um jovem de 1,5 bilhão de anos, é que há (pelo menos) seis grandes galáxias ali, em grande proximidade, além de grandes nuvens de gás em rápido movimento —um protoaglomerado de galáxias.
Observações adicionais feitas com as redes de radiotelescópios (que usam uma técnica chamada interferometria para aumentar grandemente a resolução) EVN (European VLBI Network) e e-Merlin (enhanced Multi-Element Remotely Linked Interferometer Network) permitiram determinar que a fonte de rádio está em uma das galáxias. Os pesquisadores também determinaram que a estrutura do protoaglomerado é compatível com simulações da evolução do Universo dessa época, baseadas no modelo cosmológico padrão.
Imagina-se que, nos próximos bilhões de anos (do nosso ponto de vista, já que, para esse protoaglomerado, tudo isso já aconteceu há bilhões de anos, nós apenas não vimos ainda porque a luz não teve tempo de chegar até aqui), essas galáxias todas vão colidir e se fundir, formando uma galáxia ainda mais massiva, com uma gravidade combinada capaz de atrair novos objetos e ir formando um aglomerado galáctico como os que existem em nosso entorno mais próximo, no Universo maduro.
Os dois trabalhos reportando os resultados do grupo acabam de ser publicados nos periódicos The Open Journal of Astrophysics e Astronomy & Astrophysics.
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