“Sinto como se eu tivesse morrido”, diz William Bonner, sobre sua vida após a saída do Jornal Nacional, programa em que ficou por 29 anos, e que abandonou para apresentar o Globo Repórter. Risonho, ele faz a brincadeira não para reclamar que sumiu do noticiário, mas justamente por ter se surpreendido com a forma positiva com que imprensa e público tratou a mudança. Desde que fez o anúncio, no ano passado, ele diz ter notado uma drástica diminuição nas hostilidades que sofria nas ruas.
“Voltei para quando a minha vida era dar autógrafos. No aeroporto, quando me encontram, dizem que eu não deveria ter saído do Jornal Nacional, mas que estou certo em querer viver a vida, e que César Tralli é ótimo também”, afirma ele em uma conversa com jornalistas na sede paulistana da Globo, nesta quinta-feira. “Agora, aliás, as pessoas têm dito também ‘muito obrigado’. Eu respondo que nunca fiz nada sozinho.”
Para Bonner, é como se, anos após as eleições de 2018 —quando ele e outros jornalistas viraram alvo de ataques de grupos ligados à ultradireita—, os brasileiros tivessem finalmente recuperado uma boa relação com a imprensa. Ele diz se surpreender por hoje conseguir sair à rua, de bermuda e chinelo, tranquilo, sem ouvir ofensas.
“Depois de o país passar por uma tentativa de golpe, tenho a impressão que os ‘haters’ estão mais calmos. Não sei se eles me odeiam menos, mas tenho a sensação de que a hostilidade contra um jornalista agora seria mal vista.”
Bonner falava sério, mas não parou de fazer piadas. Ao lado da colega Sandra Annenberg, com quem vai apresentar o Globo Repórter a partir do dia 20 de fevereiro, ele brincou que precisou interromper a gravação do primeiro capítulo mais de 40 vezes porque eles erravam o tempo todo.
Para tornar o programa menos burocrático, com cara de conversa entre amigos, Bonner e Annenberg decidiram abolir o teleprompter, a telinha com roteiro usada como apoio por jornalistas.
É algo inédito na carreira de Bonner, que repetiu várias vezes que estava exausto da mesmice. Ele agora pode jantar todos os dias com a família, algo que não fazia há décadas, arranja tempo para viajar e visitar os filhos que moram fora, e se mostra empolgado com os novos afazeres no trabalho.
Antes editor-chefe e apresentador, Bonner vai passar a atuar agora como repórter também —na estreia do programa, por exemplo, ele participa de uma reportagem sobre a vida de quem mora em Nova York. “Borboletas no estômago, mas é bom tê-las de volta”, diz.
A mudança de Bonner chacoalhou o telejornalismo da Globo. César Tralli, antes à frente do Jornal Hoje, teve de assumir a bancada do Jornal Nacional, e Roberto Kovalick saiu do Hora Um para substituir Tralli.
O evento organizado pela emissora não tratou apenas do Globo Repórter, mas de várias mudanças nos principais telejornais da casa. O objetivo maior para este ano, segundo a Globo, é a cobertura das eleições para presidente, deputados e senadores, que ocorrem em outubro.
Os tradicionais debates eleitorais entre candidatos passarão a ser exibidos mais cedo, imediatamente após o Jornal Nacional, para alcançar mais gente acordada. Antes, eles iam ao ar depois da novela das nove, por volta de 22h30. Agora, portanto, os noveleiros ficarão sem capítulos inéditos nos dias de debate.
O Fantástico, por sua vez, vai apostar em um pacote de reportagens sobre a vida dos adolescentes, na esteira da série fenômeno de audiência da Netflix “Adolescência”, e também em um sobre a América Latina, com Maju Coutinho presente nos países vizinhos do Brasil. Ela estará à frente também de programas que contam as histórias de entregadores de delivery.
Além disso, o dominical quer ainda narrar a disputa entre Estados Unidos e China, fazer um raio-X dos sistemas de metrô do país, e retomar o quadro em que pessoas autistas entrevistam personalidades e celebridades.