Cada galáxia tem a sua história, e uma rica interação entre seus componentes permite compreender como elas evoluem e, em última análise, como o Universo vai, aos poucos (e em variados ritmos, dependendo da região do espaço), envelhecendo. Um novo trabalho realizado por um grupo internacional de pesquisadores com liderança brasileira desenvolveu um método para decifrar, a partir da assinatura de luz de cada galáxia, a quantas andam as coisas por lá.
Uma passada rápida sobre o que são galáxias. Essencialmente, são enormes conjuntos de estrelas (de centenas de milhares a trilhões) e nuvens de gás em geral mantidos coesos por uma grande quantidade de matéria escura (cujos efeitos gravitacionais podem ser medidos, embora não saibamos exatamente o que ela é), tudo girando em torno de um núcleo que costuma conter um buraco negro supermassivo em seu interior.
Essa descrição genérica esconde um mundo de detalhes. A estrutura geral delas pode variar: podem ser elípticas (em geral galáxias mais velhas e gigantes, resultado de incontáveis fusões galácticas), podem ser irregulares (como as mais imaturas), podem ser espirais (como a nossa Via Láctea) e podem também ter uma barra de estrelas em sua região central (como é o nosso caso também). O buraco negro supermassivo, por sua vez, pode estar mais ou menos ativo (ou seja, engolindo mais ou menos massa). Quando muito ativo, ele emite poderosas rajadas relativísticas de partículas que interagem com o meio circundante, modulando a formação de estrelas que se dá nas nuvens galácticas do entorno.
O novo estudo, que tem por primeiro autor Luiz Silva Lima, aluno de doutorado da Unicid (Universidade Cidade de São Paulo), mirou justamente as galáxias ativas, tomando por exemplo uma das mais próximas, a NGC 613. Conhecida desde o final do século 18, ela está a modestos (em termos intergalácticos) 67 milhões de anos-luz da Terra e é uma espiral barrada um pouco maior que a Via Láctea, com um núcleo galáctico ativo (ou seja, com um buraco negro supermassivo devorador).
A partir dos dados do Muse, um espectrógrafo instalado no VLT (Very Large Telescope), do ESO (Observatório Europeu do Sul), no deserto do Atacama, Chile, eles foram capazes de separar as diferentes informações que vêm na assinatura de luz da galáxia, identificando os vários fenômenos que estavam acontecendo em suas várias regiões. Os pesquisadores conseguiram modelar as peças do quebra-cabeça, entendendo como a dinâmica do gás se dá a partir da barra central, podendo induzir tanto formação estelar como atividade do núcleo galáctico, e obtendo pistas do que faz uma galáxia, e alternadamente seu buraco negro supermassivo, “ligar” ou “desligar”.
O trabalho foi parte da tese de doutorado de Lima, feito sob orientação de Lucimara Martins, pesquisadora da Unicid e vice-presidente da SAB (Sociedade Astronômica Brasileira), e ganhou publicação no prestigioso periódico britânico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.
Os pesquisadores sabem que este é apenas um estudo de caso, mas dizem acreditar que o mesmo processo de análise pode ser aplicado a outras galáxias, de modo a formar um quadro mais completo de como elas evoluem e se transformam ao longo da história cósmica.
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