Seria apenas mais uma detecção de colisão de buracos negros por ondas gravitacionais, muito parecida com o primeiro evento do tipo, detectado em 2015, não fosse um detalhe: dez anos depois, a tecnologia de detecção foi muito aprimorada, o que permitiu aos pesquisadores realizar testes muito rigorosos da teoria da relatividade geral. Spoiler: Einstein triunfa novamente.
Começando do começo: em 14 de janeiro de 2025, a colaboração LVK (Ligo-Virgo-Kagra, nome dos três sistemas de detecção de ondas gravitacionais em operação, nos EUA, na Itália e no Japão) detectou um sinal notoriamente forte, captado pelas duas unidades do Ligo, em Hanford, Washington, e Livingston, Louisiana.
Ele correspondia ao espiralar de dois buracos negros de pouco mais de 30 vezes a massa do Sol rumo a uma colisão que deu origem a um único objeto, com 65 a 67 massas solares.
O evento lembrava muito o detectado em 14 de setembro de 2015, a histórica primeira detecção do tipo, que envolveu buracos negros com cerca de 36 e 29 massas solares se fundindo para criar um único de 62 massas solares (sendo a massa remanescente convertida em energia na forma das ondas gravitacionais, marolas na própria geometria do espaço-tempo que se propagam em todas as direções na velocidade da luz até chegarem a nossos detectores).
Aqui, contudo, tivemos uma década a mais de melhorias técnicas, o que permitiu aos físicos “ouvir” o sinal cerca de três vezes mais claramente que na pioneira detecção. E as medições, reportadas e analisadas em artigo publicado na última quarta-feira (10) no Physical Review Letters, confirmam a expectativa dos cientistas em torno de vários aspectos dos buracos negros.
Um deles é o de que esses misteriosos objetos podem ser definidos por apenas duas propriedades, sua massa e sua rotação, sendo no mais indistinguíveis entre si —a famosa ideia de que “buracos negros não têm cabelo”, esposada por John Wheeler e Jacob Bekenstein. (A rigor, pela teoria, também teriam carga elétrica, mas essa pode ser praticamente descartada no contexto astrofísico.) A julgar pelos dados ofertados pelo evento GW250114, com as vibrações geradas imediatamente após a fusão, enquanto o objeto se assenta para se tornar um só, é isso mesmo.
As observações também corroboraram a descrição de Roy Kerr para o comportamento de um buraco negro em rotação, a chamada geometria de Kerr —uma solução exata da equação de campo da relatividade geral formulada em 1963—, e o teorema da área de Hawking, formulado por Stephen Hawking em 1971, que diz que a área total da superfície do horizonte de eventos (fronteira matemática que indica o ponto de não retorno, a partir do qual nada pode escapar à gravidade do objeto) só pode crescer, nunca diminuir, numa fusão entre buracos negros.
A primeira década no estudo das ondas gravitacionais já cumpriu sua promessa de oferecer uma nova janela para a observação do Universo, permitindo o estudo de objetos extremos como buracos negros muito além das predições matemáticas. Mas esse é só o começo. Conforme a precisão continuar crescendo, os limites da teoria serão ainda mais desafiados, na busca por uma compreensão mais profunda e completa dos mistérios do cosmos.
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