Se você estudou biologia no colégio, subutilizou um tipo de raciocínio da ciência econômica: o progresso por meio de tentativa e erro. Na segunda página de sua autobiografia, Charles Darwin relatou que teve a ideia da seleção “natural” através de um economista, Robert Malthus, que observou que os humanos competem por recursos escassos por meio de tentativa e erro. Os melhores vencem.
Ninguém —nem Deus, nem um criador humano— precisa projetar um carcará. Ele evoluiu por variação acidental e seleção competitiva. Darwin não conhecia o DNA, mas sabia que a variação acontecia de alguma forma, por exemplo, em diferentes ilhas do arquipélago de Galápagos. Então, a “sobrevivência do mais apto” de Malthus fazia o resto. Nessa seleção natural não há um plano individual.
As estratégias das aves, por exemplo, podem ser egoístas ou cooperativas. Uma única arara-azul pode adotar a estratégia de procurar comida sozinha. Se o alimento for abundante, a estratégia egoísta funciona bem. No entanto, um pássaro solitário precisa ficar atento a predadores, nervoso como um gavião-real. Grandes bandos têm muitos olhos observando. Os demais podem se alimentar sem medo. Se o predador apanhar um pássaro, os muitos outros escaparão.
Manadas de búfalos-do-cabo na África do Sul usam a mesma lógica. Um leão pode abater um ou dois deles, mas os outros fogem. Além disso, se a comida estiver em falta, é melhor ter um grande bando ou rebanho. O rebanho inteiro é melhor que um único búfalo para encontrar comida ou água escassas.
Os biólogos, entretanto, dizem como se uma arara-azul ou um búfalo-do-cabo solitários pensassem em suas estratégias e escolhessem a melhor, do mesmo modo que economistas falam sobre um empresário. “Vejamos. Se eu me juntar a outros pássaros ou búfalos, terei uma probabilidade maior de encontrar água ou comida, e os predadores provavelmente não me comerão.”
Os ornitólogos dizem que uma ave “decide” qual estratégia “escolherá” quando “calcula” a proporção entre a energia nutricional obtida e a soma dos custos de aquisição e digestão. A metáfora do indivíduo que decide, escolhe e calcula é inócua aqui, pois é apenas uma forma de organizar a análise dos ganhos e perdas resultantes de escolhas inconscientes.
Mas é claro que os humanos calculam, e nos orgulhamos dessa capacidade. Durante muito tempo se acreditou que fosse essa racionalidade o que distinguia os humanos dos animais. Agora estamos descobrindo que os animais são muito mais inteligentes do que pensávamos —resolvem problemas, fabricam ferramentas, cooperam e aprendem observando os outros.
Os carcarás e os polvos são extremamente inteligentes. Mas eles não são ponderados da maneira sugerida pelo discurso sobre compensações, estratégias e cálculos de custo-benefício. No entanto, os economistas exageram muito até que ponto os humanos são ponderados. Grande parte das melhorias em nossa condição surgiu como uma evolução natural, ao experimentarmos milhares de novidades e descobrirmos que algumas funcionam e outras não. Não é planejado.
Por isso, é crucial para a prosperidade que haja um ambiente com todo tipo de liberdade —o que é muito benéfico para a tentativa e erro.
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