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Livro resgata séculos de poesia feminina brasileira – 11/02/2026 – Tom Farias

by Silas Câmara

Em um século tão difícil para as mulheres, um livro propõe resgatar legados poéticos e inovadores. Trata-se de “Inesquecíveis” (Bazar do Tempo), que reúne a produção de poetas brasileiras dos últimos quatro séculos, organizado por Ana Rüsche e Lubi Prates, parceiras em outros trabalhos literários e destacadas poetas.

Somos habituados a ler obras focadas em autores do sexo masculino, na prosa ou na poesia. “Inesquecíveis” nos faz desviar desse olhar viciado e nos apresenta histórica contribuição literária produzida só por mulheres, parte delas deliberadamente esquecidas de nossa literatura.

Intrigante percebermos que, na prática, o que chamamos de “esquecidas” nada mais é que uma forma velada de violência ou, na linguagem atual, de sexismo —contra mulheres, seu pensamento intelectualizado, ativista e fora do lugar comum de uma sociedade patriarcal. No período colonial, mulheres eram caladas por maridos machistas, enquanto hoje, nos tempos ditos modernos, são parte da estatística do feminicídio no Brasil.

Escrito em ordem cronológica, o livro começa com a pioneira poeta carioca do início do século 18, Ângela do Amaral Rangel, sonetista de conotação heroica, que canta as “máximas cristãs, políticas e militares”. Parte delas descreve os feitos do governador-geral Gomes Freire de Andrada, a exemplo do soneto “Primeira máxima”, cuja estrofe traz o verso “já retumba o clarim que a fama encerra”, divulgado na antologia portuguesa “Júbilos da América” (1754).

Na sequência, uma das mais injustiçadas —e apaixonantes— poetas do período, a mineira Bárbara Heliodora. Casada com o inconfidente Alvarenga Peixoto, com quem teve quatro filhos, foi diretamente implicada no movimento conspiratório. Enquanto o marido, condenado, era degredado para Angola, onde morreu, ela lutava por bens e família, expondo seu ativismo político e, de forma não explícita, sua produção poética, ainda envolta em controvérsias, que se resume nos nas sextilhas “Conselho aos Meus Filhos” e no choroso soneto dedicado à filha Maria Ifigênia.

Ainda compõem este grupo, relacionado à primeira parte, a baiana Ildefonsa Laura César, autora de “Ensaios Poéticos”, a mineira Beatriz Brandão, que publicou “Cantos da Mocidade”, entre outros, e a gaúcha Delfina Benigna da Cunha, com “Poesias e Improvisos”.

“Inesquecíveis” se divide em quatro partes. A segunda traz experiências de poetas até o início do século 20, entre as quais, Maria Firmina dos Reis, maranhense olvidada como romancista, contista e poeta negra; Narcisa Amália, Inês Sabido e Auta de Sousa, poeta morta ainda jovem, que teve livro prefaciado por Olavo Bilac.

A terceira enfeixa poetas nascidas no “Brasil República” até 1940, época de Gilka Machado, Pagu e Olga Savary, entre as mais celebrizadas. Machado, autora de “Mulher Nua” (1922), a mais moderna poeta de sua geração, foi sempre disruptiva, um primor da poesia erótica. Pelo viés da linguagem e arrojo poético, Pagu e Savary são duas fontes cristalinas.

Integram a quarta e última parte poetas da altivez de Beatriz Nascimento, Míriam Alves e Conceição Evaristo, cultuadas e representativas, de 1940 até agora. Em Nascimento, assassinada em 1995, a poesia é genialmente fluida; Alves traz consigo uma militância imorredoura. Já Evaristo paira negritude e escrevivência.

Apesar da sentida ausência de Leodegária de Jesus, Almerinda Gama, autora de “Zumbi” (1942), e Carolina Maria de Jesus, “Inesquecíveis” é obra oportuna e plausível.


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