Aproxima-se a semana da mulher e a declaração do jogador Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, caiu como uma bomba. Enrolado nos pensamentos, ele defendeu que mulheres não são capazes de apitar jogos importantes, ao mesmo tempo em que se desculpava com a esposa e a mãe. Depois do episódio, orientado pelo marketing do clube, preocupado com os danos para a marca patrocinadora, tentou consertar o erro, mas era tarde.
O episódio ilustra, mais uma vez, o machismo em que estamos inseridos. E quando ampliamos o olhar para outras áreas da sociedade percebemos que o tema está espalhado, independentemente do setor econômico e social.
Nas empresas, por exemplo, as mulheres são minoria nos espaços de direção e ganham salários 20% menores do que homens nos mesmos cargos.
No campo político, a situação não é diferente. As mulheres são mais de 51% da população brasileira, mas a representação política feminina no país é muito baixa.
As mulheres são mais de 51% da população brasileira, mas a representação política feminina no país é muito baixa. O Mapa Mulheres na Política 2025, elaborado pela ONU Mulheres, mostra que o Brasil ocupa a 133ª colocação no ranking global de representação parlamentar de mulheres e a 53ª posição no ranking de representação ministerial.
Os números mostram que apenas 18,1% da Câmara dos Deputados é composta por mulheres, ou seja, 93 parlamentares. No Senado, elas são 19,8% (apenas 16 mulheres).
Essa desproporção também aterrissa nas cidades. Em apenas 68 municípios as mulheres têm representatividade igual ou superior aos homens nas câmaras municipais. Em 2.297 cidades elas são menos de 20% no parlamento. Em São Paulo, são 20 vereadoras em um total de 55 representantes (36%).
A consequência mais dramática deste machismo se materializa nos tristes dados de violência contra a mulher. Em 2025, o número de feminicídios bateu recorde no Brasil com 1.518 casos.
O Instituto Cidades Sustentáveis encomendou para a Ipsos pesquisa sobre mulheres nas dez maiores capitais do Brasil, que será lançada na semana da mulher. Adianto alguns números que revelam a percepção da população em relação ao tema.
Sete em cada dez mulheres dizem já ter sofrido algum tipo de assédio em pelo menos um dos seis locais pesquisados. É um patamar elevado e persistente. Porto Alegre (RS) e Belém (PA) são as capitais em que a percepção de assédio é maior (8 em cada 10 mulheres já passaram por esta situação nestas capitais). Ruas e espaços públicos são os locais onde mais ocorrem essas situações. Em segundo lugar aparece o transporte público.
Na divisão de atividades domésticas, 4 em cada 10 pessoas afirmam que as mulheres fazem a maior parte das tarefas, ainda que a responsabilidade seja de ambos, e para parcela semelhante tais atividades são divididas igualmente. A divisão de tarefas domésticas expõe o descompasso da percepção entre gêneros: os homens veem divisão igualitária, enquanto as mulheres sentem que fazem a maior parte do trabalho.
Além disso, há o trabalho invisível. Mulheres dedicam quase o dobro do tempo aos cuidados domésticos e familiares em comparação aos homens (21 horas contra 11).
É importante ressaltar ainda o recorte de raça, pois as mulheres pretas e pardas sofrem disparidades ainda maiores, com maior presença na informalidade e jornada de trabalho doméstico superior à de mulheres brancas.
Uma das explicações para os graves problemas que vivemos e para a incapacidade de superá-los é que a política é dominada por homens brancos que atendem aos interesses de grupos específicos —e portanto sem a menor vontade de promover qualquer tipo de mudança. Um cenário, aliás, que contribui muito para a rejeição da política pela sociedade, porque ninguém se sente representado.
Reverter essa realidade não é tarefa fácil, mas é preciso enfrentá-la. Diariamente. Em casa, nas escolas, nas ruas, no ambiente de trabalho, em todos os lugares onde for possível debater e refletir sobre o assunto. Campanhas são fundamentais nesse sentido, mas podemos e devemos fazer muito mais. É preciso ampliar os canais de denúncia, punir os infratores e criar políticas públicas efetivas, que de fato promovam uma mudança estrutural (e cultural) na sociedade. Caso contrário, a violência contra a mulher continuará ocupando não só as manchetes policiais, mas também as situações mais triviais do nosso cotidiano —como um simples jogo de futebol.
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