Jornalista e professor dos mais respeitados, autor de títulos sobre mídia e ética, Eugênio Bucci lança, agora, um livro de poesia, “Os Dois Hemisférios do Meu Colarinho”.
Pode parecer surpreendente, mas a poesia não é realmente estranha a Bucci. Sob o pseudônimo de Eugênio Barata, ele foi coautor, em 1982, de um livro de sonetos, “Um Balde”; com seu nome real, publicou poemas em periódicos.
Nunca deixou de escrever em verso, e boa parte do novo volume data ainda de 2005, quando, em Brasília, comandava a Radiobrás. Portanto não é um capricho a escolha da forma poética para tratar de política, justiça social e ideologia —no primeiro hemisfério, “Politicaô”— ou de erotismo —no segundo, “Libertímido”.
A primeira seção reelabora aspectos da trajetória do autor, e os poemas não escondem certo desalento. Ela se abre com “Justiça”: “o que a lei/ não redime/ é o crime/ com defeito// se bem feito/ ou bonito/ o delito/ talvez rime/ com direito// se perfeito/ ora, o crime/ é a lei”.
O poema inaugura o livro mostrando domínio da síntese e do ritmo, elementos tão inerentes à poesia quanto ignorados por quem confunde verso livre e “prosa com enter”.
Bucci, ao contrário destes, faz a devida distinção, valendo-se de rimas toantes, enumerações e quebras que ampliam o sentido dos versos. Cioso, dá a um dos poemas, “A República dos Bugalhos”, o subtítulo de “prosa em verso”, sublinhando que não é o que faz no resto.
Usa também artifícios tradicionais. Em “Mas o Povo”, une forma e assunto pela inserção da redondilha maior, a mais popular e musical das métricas —pense no cordel e, a partir dele, em “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.
Permite-se também abraçar o prosaísmo tão comum na poesia hoje. Assim constrói o ótimo “Antipoesia a despeito de Norberto Bobbio”, em que questiona com ironia a dicotomia direita/esquerda, em estrofes-síntese como “os de direita rugem/ — dai a mim o que desejo/ os de esquerda mandam/ — desejai o que provejo”.
Esse poema longo amarra o tom do que diz, em toda a seção, o eu-lírico —quase se poderia dizer “eu-cínico”. Seu arremate é um aceno drummondiano: “todos querem dar um jeito na vida/ inclusive eu/ apesar dos meus fracassos ambidestros// todos todos todos/ menos a tia rosinha/ que ganhou na loteria/ e não estava nem aí pra essas coisas”.
Tópico quase inescapável no gênero, a investigação do fazer poético comparece em “Fiar”, ressaltando o caráter “escondido” para Bucci, quando escreve “feito de sílabas fracas/ isto aqui existe/ tônico/ a despeito de escapar/ às garras dos holofotes”.
O mais inevitável dos temas poéticos, porém, é o amor. É, também, o mais escorregadio, o que faz com que a segunda parte do livro seja mais irregular. Nela a dicotomia é entre a libertinagem da aventura sexual e a timidez do amante romântico.
“Desbloqueio” é uma abertura vigorosa, cheia de belas imagens, como “seus dedos penteiam minhas costas/ uma cicatriz/ um descampado/ a pele se desembaraça”.
Como na primeira seção, ouvem-se ecos de outros poetas. Aqui há algo de Vinicius no lúdico “Desamor” —”a mulher que não te ama há de ser calma”.
Em “Além da Vista” e “A Voz do Sedutor Quase Absoluto”, Bucci usa com habilidade a forma fixa favorita da lírica amorosa, o soneto, que no Brasil atual tem em Paulo Henriques Britto seu cultor máximo. Mas também trabalha bem a rima fora dela, como em “No Auditório”, repleto de paronomásias à la Leminski, com mais ou menos acerto.
O conhecimento que Bucci tem da poesia é o claro meridiano entre os hemisférios; a bússola para navegá-los é o humor, sendo mais precisa quanto mais autoirônico ele soa.
O ponteiro, contudo, oscila. Se o poema se leva a sério demais, soa um tanto artificial, como em “Sobrevoo” ou “Desaparecido”. Se exagera, cai no jocoso —”a tua saia […] tomara que saia”, de “No Auditório”— ou, pior, no juvenil —”você fala com o meu falo?”, de “Falácias”. Felizmente, as poucas perturbações não impedem o leitor de apreciar a viagem.