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Robert Crumb: Minha arte me impressiona e me dá vergonha – 21/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Nem a caligrafia nem o tom das respostas deixam mentir. Quem escreve à reportagem, à mão, é Robert Crumb. “Eu tenho reputação de recluso? Você tem certeza disso? Escute, se eu fosse realmente um recluso, não estaria respondendo a estas perguntas. Na verdade, sou até bastante sociável. Tenho muitos amigos, ok?”, dizem as letras de forma, em grafite, bem coladas umas às outras.

Tão rabugenta como bem-humorada, a resposta vem do autor que, desde os anos 1960, revirou a linguagem do quadrinho americano para expor não apenas suas paranoias e taras mais sujas, como satirizar a sociedade de consumo sem piedade, como mostram os trabalhos de “Tempos Modernos”, coletânea recém-lançada pela editora Veneta.

A questão era como Crumb, hoje aos 82 anos, revê toda essa obra confessional e sem pudores, enquanto mantém, sim, uma aversão à exposição pública.

Afinal, o autor, nascido na Filadélfia numa família pobre e disfuncional, refugia-se do sonho americano desde 1991 na comuna medieval de Sauve, no sul da França, a cerca de 750 km de Paris.

Não tem rede social, não usa internet, não vai com frequência a grandes eventos —quando veio à Flip, em 2010, mal saía do hotel— nem dá muitas entrevistas. “Não frequento bares ou cafés. Não vou a ‘baladas’. Não gosto de multidões. Não suporto música pop alta”, ele afirma, completando a lista.

Ao mesmo tempo, o autor já abriu muito de sua intimidade para o mundo como estrela do documentário “Crumb”, de Terry Zwigoff, de 1994. Tampouco fecha as portas a jovens entusiastas que despertem nele a memória daquele rapaz franzino que, há quase 60 anos, vendia pelas ruas de San Francisco os primeiros números da “Zap Comix”, um marco do underground.

“Eu viajo, faço aparições públicas, estive em todos os lugares nestes últimos seis meses. Estou ficando em casa por um tempo agora.”

Ele se refere aos eventos de divulgação da biografia “Crumb: A Cartoonist’s Life”, escrita pelo pesquisador Dan Nadel —um desses fãs obstinados que conseguiram se aproximar do artista para tentar decifrá-lo. O livro, fruto de um trabalho de sete anos, chegará ao Brasil pela editora Todavia, com tradução de Érico Assis, mas ainda sem previsão de lançamento.

Para alguns, Crumb é o artista mais influente de sua geração, o mestre que soube traduzir viagens de LSD, fantasias, neuroses e tabus da América em HQs estreladas por personagens como o gato Fritz, o guru Mr. Natural e, muitas vezes, pelo próprio autor.

Para outros, é um inimigo do feminismo, pervertido e passadista —só porque poderia passar o resto da vida ouvindo sua coleção de blues com milhares de 78 rpm dos anos 1920 e 1930, uma das poucas coisas que, como ele já disse, desperta nele algum amor pela humanidade.

“Certamente deixei minha marca e uma grande pilha de arte! Parte disso me envergonha um pouco, parte é impressionante até para mim”, afirma. “O que me envergonha mais, porém, é ler entrevistas antigas que dei ao longo das décadas, as muitas coisas estúpidas que disse, opiniões que disparei. Isso me faz perceber: apenas desenhe e pare de dar entrevistas, como esta, por exemplo. Tomou um dia inteiro da minha vida.”

E isso porque o artista decidiu responder apenas à metade das questões enviadas pela reportagem por email, esquivando-se de comentar, por exemplo, sua visão crítica da cultura “woke”, as acusações de racismo e machismo em sua obra e mesmo seus projetos futuros.

O ponto, para Crumb, é que não há contradição. “Ser confessional e transparente no trabalho não é a mesma coisa que ser sociável, de gostar de sair e passear.”

Fechado em seu estúdio, ele consegue, ainda hoje, se autoanalisar e expurgar tantas angústias no papel, num desenho tão hachurado e realista quanto cartunesco, conciliando Walt Disney, o estilo borrachento de um “Popeye” e as nojeiras da revista “Mad”.

Os trabalhos mais recentes de “Tempos Modernos”, dos últimos dez anos, exibem ainda um pincel mais atento ao grotesco das coisas como elas são, tamanho o detalhismo, por exemplo, do topete do presidente Donald Trump numa história de título autoexplicativo: “Alimentação ruim e penteado ruim destroem a civilização humana”.

“A fase otimista do meu trabalho durou apenas alguns anos, de 1965 a 1968. Depois disso, começa a ficar sombrio e pessimista. Meu estilo de desenho tornou-se mais realista ao longo dos anos à medida que lidava mais com a realidade humana cotidiana”, diz. “Talvez seja hora de eu voltar para aquele estilo mais cartunesco. Era mais fácil, levava muito menos tempo.”

Organizada pelo editor Rogério de Campos com a ajuda de Crumb e de sua agente, Lora Fountain, “Tempos Modernos” reúne exemplares desses diferentes períodos, incluindo colaborações com jornais ecologistas e anticapitalistas. Em comum, os trabalhos abordam sua desconfiança da tecnologia, das modas e do sucesso.

Algumas delas são assinadas ao lado da mulher, Aline Kominsky-Crumb —uma artista underground pioneira— ou da filha do casal, Sophie, também quadrinista.

Numa das mais antigas, de 1977, ele narra a cobertura de um simpósio sobre exploração espacial. “Saí cambaleando pela porta, com a cabeça girando depois de oito horas de mentiras, conversa fiada, propaganda e loucura que tinha acabado de suportar.”

Meio século depois, Crumb responde sobre o tema com minúcia —preenche uma página falando de “antigravidade” e de tentativas de “engenharia reversa de discos voadores”—, mas sua visão apocalíptica mudou pouco.

“Virou um hobby para os obscenamente ricos” diz. “Agora temos uma classe de indivíduos que acreditam ser semideuses. Eles acreditam que sua riqueza sozinha lhes dá o direito de decidir nosso destino. Ouçam bem, boa gente! Este é um estado de coisas muito perigoso!”

Ao comentar as bizarrices hoje produzidas por inteligência artificial, ele adota o mesmo tom alarmista. “Estamos construindo enormes ‘data centers’ que exigem vastas quantidades de energia e água para evitar que esses cérebros mecânicos superaqueçam e derretam!”

Muito do volume foi tirado também da revista “Weirdo”. Criada pelo artista em 1981, a publicação refletiu o clima punk da época e foi o lar de Mode O’Day, uma mulher obstinada a fazer parte da panelinha artística de Nova York. Foi na Grande Maçã que a carreira de Crumb começou a deslanchar, ainda como assistente do quadrinista Harvey Kurtzman, mas logo ele quis distância da agitação de lá.

Diferente de outras criações do autor, Mode O’Day é bem menos conhecida do público brasileiro, daí seu destaque em “Tempos Modernos”. Ela faz uma dupla inusitada com Doggo, um cão antropomórfico hippie, descrito como um “delinquente sexual” —um título não raro dado ao próprio Crumb.

Afinal, por trás do magrelo com óculos fundo de garrafa, sempre morou um tarado por mulheres fortes, que não hesitou em representá-las com coxas, nádegas e seios fartos.

Seu apetite sexual já foi tema, no país, de álbuns como “Meus Problemas com as Mulheres” e “A Mente Suja de Robert Crumb”, mas, no novo volume, ele aparece com uma dose de autocrítica —sobretudo nos trabalhos assinados com a esposa.

Os cartuns resumem bem uma relação que durou de 1978 até a morte de Aline, há pouco mais de três anos. Na biografia, Dan Nadel descreve a artista como uma parceira completa e protetora do marido, que soube construir uma comunidade, em Sauve, que hoje ajuda a filha do casal a cuidar do viúvo octogenário que mal sabe falar francês.

Os cartuns mostram um casal com o mesmo humor autodepreciativo e a mesma liberdade sexual, ainda que Crumb, mais velho, agora condene seus impulsos libidinosos do passado. Não à toa, é Aline quem tira sarro dos leitores numa cena em que ele, hipnotizado pela “bunda musculosa” da mulher, monta nela e brinca de cavalinho.

Mas eles não escondem suas discordâncias, como a respeito da Covid, conforme Crumb se recusa a tomar a vacina, ataca a mídia e o consenso científico.

Questionado, o autor diz que é irônico que ele concorde em algo com figuras como Jair Bolsonaro, que desdenhou da vacina durante seu mandato como presidente do Brasil. Reforça, no entanto, que não é negacionista, fã de Trump ou do movimento conspiratório QAnon, e que, na França, muitos intelectuais de esquerda desconfiaram dos imunizantes.

Seu problema, diz, é com uma indústria farmacêutica “notória por sua falta de integridade”, que só tem olhos para os lucros.

Não por acaso, a história que encerra “Tempos Modernos” fala da dificuldade do casal com o dinheiro, após a galeria de Crumb vender uma arte original de sua HQ “Gênesis”, de 2009 —uma adaptação fiel ao texto bíblico— por US$ 2,9 milhões. Assustados com o montante, eles vão atrás de um consultor financeiro, que recomenda, curiosamente, investir em gigantes do agronegócio, farmacêuticas e afins.

“E os anos 1960, o LSD e tudo o que vivemos? Foi para nada?”, questiona Aline. No fim da mesma página, marido e mulher sobem ao terraço da casa para observar os pássaros. “As melhores coisas da vida são de graça. Não há solução!”, conclui Crumb nessa HQ de raras tintas coloridas.

Não é diferente do que escreve nesta entrevista a lápis e borracha. “Ok, eu tiro sarro de mim mesmo, da minha paranoia, mas acredito nas coisas que digo. Minhas preocupações são totalmente genuínas. Mas, sabe, ao fazer quadrinhos, você tem que manter o entretenimento, tem que ver o absurdo, a tolice essencial de tudo isso. ‘Tudo é vaidade’, como diz tão sabiamente o livro de Eclesiastes no Antigo Testamento. Amém, irmão.”

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