O autor liga pra sua agente. “Ô, Marcela, meu último livro meio que flopou. Vendeu pouquíssimo. Nunca mais fui chamado pra Flip, pra Bienal de SP ou do Rio. Não tá rolando nem eventinho nos Sescs ou entrevistas pros booksters do Instagram. Podemos estar mal posicionados?”
“Veja, meu querido, vou ser bem direta, tá? Você é um bom escritor e tal, mas é um autor homem, branco, hétero e cis. Tá difícil de te vender”. “Pera lá! Eu sou um homem branco hétero e cis engajado com as causas! Eu entrei, nos últimos anos, em todas as hashtags! #MEETOO, #MEUCORPOMINHASREGRAS. #BLACKLIVESMATTER. Isso não conta?”.
“Querido, isso só piora a sua situação. É o chamado “esquerdomacho”. Vive todos os privilégios do patriarcado e ainda quer faturar em cima das lutas contra ele.” “Ô, Marcela, não quero faturar em cima de nada, só quero ser um ser humano digno e divulgar o meu trabalho.” “Entendi, então você tá dizendo que seu trabalho está sendo boicotado pelo feminismo, pelo antirracismo e pelos LGBTQIA+? Tá falando que está sendo discriminado por ser homem branco, hétero e cis?”
“Que isso, Marcela?! Não! Longe disso! É fundamental que haja espaço pra todas as pessoas que foram historicamente silenciadas e tals. Não estou de forma nenhuma defendendo o patriarcado. Reconheço os privilégios todos. Num babate, jamais defenderia o papel do homem branco hétero cis através da história. É um legado meio difícil de defender, né? Só quero saber como vender o meu trabalho.”
“Vamos tentar te reposicionar. Você sofreu algum abuso sexual na infância?” “O que?” “Você foi abusado sexualmente na infância?” “Nossa, graças e Deus, não”. “Você veio de uma família muito, muito pobre que ascendeu?”. “Não. Minha mãe era jornalista, meu pai era escritor. Tínhamos uma Brasília, não um Santana. Às vezes meu pai pegava um Scort XR3 conversível do Sérgio Antunes, amigão dele, e dávamos umas voltas, mas acho que não dá pra vender isso como ascensão social.”
“É, tá difícil, meu amigo, me ajuda a te ajudar.” “Já sei! Já sei! Eu sou meio surdo! Eu uso aparelho auditivo! Sofro de otoesclerose”. “Você sabe se comunicar em libras?”. “Não”. “Desculpa, meu caro, mas se você tem problemas auditivos, não se comunica em libras e quiser fazer dessa deficiência um ativo, vai se sair como traidor da categoria.”
“Que que eu faço então, Mercela? Como eu me posiciono no mercado?”. “Pensando aqui. Só tem uma saída. Você tem que ser cancelado.” “Poxa, mas isso não é o fim da linha? É fechar as últimas portas que estão abertas!” “Nada! Ser cancelado coloca você no centro da conversa”. “E como eu vou ser cancelado?”. “Não interessa o como. Você vai aparecer cancelado e daí em diante as redes sociais cuidam do assunto. Vamos começar sua recolocação já no pós cancelamento. As pessoas nem saberão o que aconteceu, mas vão se posicionar. Começa a escrever aí.” “Tá, fala que eu digito”.
“Minha última crônica recebeu muitas críticas. Numa época de polarizações e extremismos, ela foi colocada fora de contexto. Quem me conhece sabe que sempre lutei contra o preconceito, em qualquer forma que ele apareça. Quando escrevi “Você é um bom escritor e tal, mas é um autor homem, branco, hétero e cis” o que eu queria dizer não foi o que interpretaram.
Toda a comunidade deficiente auditiva, da qual eu faço parte: lamento se alguém se sentiu ofendido. Ou ofendida. Nunca foi a intenção. Inclusive, se quiserem me chamar para um debate ou mesa literária, podemos falar melhor sobre o assunto. Na Flip, nas bienais ou nos Sescs. Cartas ou emails à Redação!” “Tá bom assim, Marcela?”. “Tá péssimo. Acho que pode funcionar.” “Que ótimo.”
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