Nas últimas semanas, dívidas das famílias tomaram as discussões econômicas e políticas no país.
A degradação da qualidade do crédito era um fenômeno visível desde ao menos o início de 2025 e previsível desde que as taxas de juros passaram a subir, no final de 2024. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), porém, pareceu surpreso ou, ao menos, demonstrou preocupação maior com o tema apenas com a onda de declínio do prestígio do presidente.
A baixa da avaliação presidencial não vem de hoje, mas desde o início do ano passado. Além do mais, as queixas do eleitorado são diversas, como o nível elevado de preços, impostos, insegurança e corrupção, que causam desconfiança geral no sistema político.
O problema do crédito é de fato sério, mas nada inesperado. No fim de Lula 2, em 2010, o total de dinheiro emprestado a pessoas físicas equivalia a 20% do Produto Interno Bruto; no momento, a 35%. Em níveis sempre aberrantes, taxas de juros mais elevadas provocaram aumento de inadimplência e do comprometimento da renda com o pagamento de débitos. O problema pode ir além.
Segundo pesquisa Datafolha, 67% dos entrevistados dizem ter dívidas financeiras, excluídos aqueles que têm empréstimos consignados. Desses endividados, 21% dizem ter atrasado pagamentos. No caso de dívidas de consumo (assinatura de celular, internet, água, luz e outros), 28% dizem ter contas em atraso.
Os dados são compatíveis com os da pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio, na qual, em março, 80,4% diziam ter dívidas em geral (não apenas financeiras), 29,6% estavam em atraso e 12,3% diziam que não teriam como pagá-las.
A pesquisa Datafolha questiona qual o principal problema na vida pessoal hoje. É financeiro, segundo a resposta mais frequente, de 37%, embora apenas 5% mencionem explicitamente dívidas. Saúde pessoal vem citada em segundo lugar, com 20%.
Entre os entrevistados, 57% usam cartão de crédito; 10% apostam pela internet, mesmo que raramente, e têm mais dificuldades financeiras do que a média.
Problemas com dívidas são atribuídos a facilidades de acesso a crédito. A afirmativa de que “as ofertas de crédito pelo celular ou pela internet facilitam muito o endividamento por impulso” tem a concordância de 84%.
“A facilidade para conseguir novos cartões de crédito hoje leva muitas pessoas como eu a se endividarem”, dizem 82%. “Hoje em dia é difícil viver sem usar o cartão de crédito para fechar as contas do mês”, segundo 68%.
Não há solução de curto prazo, assim como não se reverte a piora do crédito das famílias com remendos. O motivo mais imediato da degradação foi a alta de juros, resultado da má gestão das contas públicas sob Lula, não da reação necessária do Banco Central contra as pressões inflacionárias. Se o governo quisesse saber da origem do problema, bastaria se olhar no espelho.
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