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Dennis Carvalho: veja entrevista inédita do diretor – 28/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

A trajetória de Dennis Carvalho, morto neste sábado (27), como diretor se confunde com a de Gilberto Braga como autor.

Eles formaram uma das grandes duplas da teledramaturgia da Globo em seu período áureo. Inicialmente ator, Dennis ensaiou uma virada profissional na segunda metade da década de 1970, quando dirigiu duas novelas em parceria com Regis Cardoso – “Sem Lenço, Sem Documento”, em 1977, e “Te Contei?”, no ano seguinte.

Ainda em 1978, quando Gonzaga Blota deixou a direção de “Dancin´Days” por volta do capítulo 50, Dennis foi um dos três diretores que assumiram a tarefa de levar a primeira novela das oito de Gilberto até o final.

Visto à distância do tempo, esse encontro será determinante para a carreira de ambos. Dennis e Gilberto vão trabalhar juntos em uma quinzena de produções, incluindo novelas e minisséries. É uma parceria que extrapola o nível profissional – eles se tornam grandes amigos.

Durante a apuração para a biografia “Gilberto Braga, o Balzac da Globo”, em 2021, conversei algumas vezes com Dennis. Ele é um dos personagens mais citados no livro. E relatou casos engraçados da parceria, que ajudam a entender como construíram uma relação tão fraterna e frutífera.

Antes de se tornar o diretor preferido de Gilberto, Dennis ganhou um papel importante em uma novela do autor, “Brilhante”, em 1981. Ele interpretou Inacio Newman, filho de Chica Newman, a personagem de Fernanda Montenegro na trama. Inácio era homossexual e a Censura não permitia que o autor deixasse isso claro. Dennis também fez uma ponta, no capítulo final de “Celebridade”, que ele próprio dirigiu, no papel de um senador numa CPI.

Reproduzo a seguir alguns trechos dos depoimentos do diretor, que ajudam a iluminar a sua contribuição à obra de Gilberto.

O início

Conheci Gilberto em “Dancin´ Days” (1978). Comecei a dirigir por volta do capítulo 50. A partir de “Corpo a Corpo” (1984), falava todo dia com Gilberto. Ele era uma pessoa metódica, maníaca. Todas as novelas que fiz com ele, pelo menos 80%, o capítulo estava acabando no ar, eu já sentava na poltrona, me preparava, quando entravam os créditos, tocava o telefone. Todos os dias. Ele comentava o capítulo. Dizia o que tinha achado e eu dizia o que tinha achado. Nunca tive essa relação com nenhum outro autor. Éramos amigos mesmo, quase irmãos.

Apoio

Quando meu filho morreu, Gilberto foi de um companheirismo e carinho comigo impressionantes. Ficou abraçado comigo até o fim no hospital. A gente abria as intimidades um para o outro. Meu pai conheceu o Gilberto nesta situação. Uma hora vi os dois conversando. Perguntei pro meu pai o que eles conversaram. “Perguntei se ele tinha filhos”. A resposta de Gilberto: “Não, seu Erasmo. Eu sou homossexual e sou casado com aquele moço ali (Edgar)”. Meu pai caretão, tomou um susto. Edgar foi reclamar com ele. Gilberto respondeu: “Pai de amigo meu tem que saber de tudo. Depois dos 60 anos eu falo o que eu quiser, do jeito que eu quiser. Sincerão. Sincero”.

Proximidade

Tenho um ritmo acelerado e o Gilberto fala tudo devagar. Eu ficava meio impaciente no telefone. Ele começou a me conhecer tanto, que sabia o que eu ia gostar. Às vezes, escrevendo uma cena à 1h da manhã, ele me ligava. Aí lia a cena inteira pra mim, fazendo as duas vozes. E eu me controlando pra não rir. “Você acha melhor fazer em externa ou em estúdio?” Me consultava para essas coisas.

Bronca em Dancin´ Days

Tinha uma cena do Fagundes com o terapeuta. Cena de terapia em televisão fica chata. Duas pessoas paradas falando. Eu, diretor jovem, começando pensei em fazer alguma coisa diferente e coloquei o Fagundes andando pela sala enquanto falava com o terapeuta. Gilberto me liga: “Você não faz terapia, Dennis?” “Por quê?” “Desde quando o paciente fica andando na frente do terapeuta?” “Desculpe, foi um erro”. Nas outras cenas, coloquei o Fagundes sentado.

Descobridor de Malu Mader

A gente se aproximou mais quando eu sugeri a Malu Mader pra ele. Eu tinha ido ao Tablado, Malu estava atuando na montagem de “Os Doze Trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. E lembro de ter visto ela num comercial do Rio. Cara, essa garota é bonita e boa atriz. Escalei ela em “Eu Prometo” (última novela da Janete). Gilberto me ligou: “Gostei muito daquela menina. Como ela chama?” Liguei pra Malu e avisei que ia começar uma novela com o Gilberto e que ele tinha gostado dela. “Tenta um contato com ele”. Ela tentou, mas não conseguiu. Pegou uma foto dela e escreveu atrás que queria trabalhar na novela e deixou no prédio dele. Gilberto me ligou: “Dennis, eu me apaixonei. Se eu não fosse gay, se casava com ela amanhã.”

Vale Tudo

Gilberto me chamou na casa dele. É sobre o que a novela? “É só uma pergunta: vale a pena ser honesto no Brasil?” Nunca esqueci disso. Ele tinha muito claro o que ele queria.

Quem matou Odete? Só Boni, Daniel, Gilberto e eu sabiam. A Globo estava fazendo um concurso e ia sortear no Fantástico. Se vazasse era processo. Deixei para gravar essa cena no último dia. Três dias antes, liguei pro Gilberto. “Quem é o assassino? Você já mudou de novo?” “Dennis, quem é a mulher que tem a cara de mais louca do elenco?” Falei: Cassia Kis. Ele: “Acertou?” Aí ele me explicou a cena.

Festas

Todas as novelas do Gilberto a gente assistia todo mundo junto, tanto as estreias quanto último capítulo. Cerca de 300 pessoas, até o varredor do estúdio. Eu e o Gilberto rachávamos as despesas. “Celebridade” foi no Porcão Rio´s. Botava um telão enorme e som.

Dono do Mundo

Daniel Filho leu a sinopse, e chamou eu e Gilberto na sala dele. “Essa novela é muito ruim, Gilberto”. Eu já baixei a cabeça e pensei: “Caralho”. Daniel disse: “Quem vai se interessar pela história de um cara que aposta que vai ter a noite de lua de mel com a garota?” Ele jogou a sinopse em cima da mesa e foi embora. O Gilberto ficou com olho cheio de lágrimas. Comecei a consolar ele. Constrangimento total. Falou que não ia mais escrever, que não queria mais falar com o Daniel. Eram amigos. Depois fizeram as pazes. Gilberto não deu o braço a torcer. Daniel foi muito grosso.

Lealdade

Fiquei amigo dele porque ele era uma pessoa muito transparente. Não escondia o que estava sentindo, o que ele achava das pessoas. Me sentia seguro com ele. Sabia que ele nunca ia me trair, dar uma facada nas costas. Tudo que ele achava de ruim no meu trabalho ele falava. Eu também falava. Já vivi isso, muita gente faz isso. Antonio Calmon disse que a novela não ia bem por minha culpa; que ele pedia coisas e eu não fazia. Tudo mentira. O João Emanuel é quase isso. Passei o maior perrengue em “Segundo Sol”. Com o Gilberto era total lealdade. Um falando direto para o outro, sem colocar a direção da Globo no meio.

Muito conservador

Gilberto reclamava quando eu fazia coisas “modernas”. Ele era muito conservador. Rejeitava. Tipo um plano em que um personagem aparece de costas. “Que isso, Dennis?”.

Pátria Minha

Vera Fischer estava muito mal, sempre chegava atrasada. Maioria das cenas com Tarcísio. Tinha uma cena externa, às 10h. Às 10h30, o diretor me ligou. “Vera ainda não veio”. Mandei um produtor na casa dela. Ele foi lá. A empregada atendeu, foi lá dentro e voltou: “Ela mandou dizer que está gripada e só vai ficar boa às 13h”. Até o dia em que ela faltou. Gilberto estava dormindo, liguei pro Boni. “Não sei o que eu faço”. “Tira ela da novela agora!” Ela e o Felipe Camargo. “Calma, Boni. Não é assim.” Gilberto não queria. Mas foi convencido. Fez o hotel pegar fogo; os dois morriam no hotel.

Celebridade

Ele deu muita liberdade, intimidade pra Malu. E ela não soube dosar direito. Começou a ligar pra ele e pedia pra mudar cenas. Até de madrugada. Comigo também, mas eu ria. Quer dirigir? Vai lá e dirige.

Wagner Moura

Vi o Wagner Moura no teatro, no cinema. Falei: esse cara é muito bom ator. E fotografa bem. Comecei a falar pro Gilberto. Mandei vídeos do Wagner pro Gilberto, que não o conhecia direito. “Dennis, concordo com você. É um bom ator, mas o peitoral dele é de anos 70”. Como é que é, Gilberto? “Ele é muito magrinho, intelectual, não tem o corpo bonito”. Eu: “Mas é um puta ator”. Alguns dias depois, Gilberto topou a sugestão. “Tá, vou confiar em você”. Na metade da novela, ele me liga pedindo desculpas. Estava errado.

Babilônia

Foi uma coisa muito louca. Fiquei muito revoltado com a reação dos espectadores. Nem foi beijo. Foi um selinho. Um deputado reuniu toda a bancada evangélica e pediu para recomendarem a todos os pastores que pedissem ao fieis para boicotarem a novela, que era coisa do diabo.

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