O ataque dos EUA ao Irã foi precedido por uma série de apostas incomumente grandes e bem calculadas que geraram um lucro combinado de US$ 330 mil (R$ 1,7 bilhão) e foram feitas por 12 contas suspeitas nos dias anteriores aos ataques aéreos de sábado de manhã.
O FT identificou carteiras no mercado de previsões online Polymarket que coletivamente apostaram US$ 66.993 (cerca de R$ 348 mil) de que um ataque aconteceria até sábado (28). Cerca de metade das apostas feitas por essas contas ocorreu nas seis horas anteriores ao ataque.
“Se uma carteira nova faz uma aposta muito grande em uma única questão, você tem que se perguntar por que estão fazendo isso”, disse Matt Saincome, CEO da provedora de dados financeiros Unusual Whales. “Vemos pessoas fazerem isso e errarem, mas faz você pensar, talvez seja alguém com informações privilegiadas.”
O FT identificou as contas em duas etapas. Primeiro, identificando apostas que eram incomumente grandes considerando as probabilidades oferecidas, com base em análise de apostas feitas em outros mercados de apostas políticas nos últimos meses. Um dos mercados sobre o Irã continha mais de 20 vezes mais apostas atípicas do que um mercado médio de seu tamanho.
Em seguida, essas apostas atípicas foram filtradas para identificar carteiras que apenas apostaram em mercados relacionados ao Irã, não venderam nenhuma de suas posições antecipadamente e tinham um histórico perfeito.
Após filtrar por esses fatores, o FT identificou 13 carteiras, das quais 12 abriram suas contas apenas dias antes do ataque. A maior parte de suas apostas foi feita nas 24 horas anteriores ao ataque, o que significa que estavam apostando em um ataque dentro de um dia.
Os lucros destacam como sites de apostas anônimos como a Polymarket, que não exigem que clientes na maioria das jurisdições forneçam seus nomes e que funcionam usando criptomoedas, podem representar um problema maior do que se reconhecia anteriormente para a segurança de informações sensíveis se pessoas com informações privilegiadas começarem a negociar neles. Operações militares são uma questão particularmente delicada, dado que frequentemente dependem do elemento surpresa.
Discussões online entre usuários de plataformas de previsão frequentemente focam em como pessoas com informações privilegiadas podem ganhar dinheiro —e se outros apostadores podem imitá-las.
O FT também descobriu outro indicador de padrões de apostas incomuns. Outros mercados mais antigos da sobre se os EUA atacariam o Irã até datas anteriores em fevereiro viram as probabilidades implícitas —que são determinadas pelos preços que os traders pagam— de sucesso se tornarem mais distantes à medida que o prazo se aproximava e o tempo restante para os EUA atacarem diminuía.
No entanto, na véspera do ataque de 28 de fevereiro, a probabilidade implícita subiu cerca de 20 horas antes do ataque.
A Polymarket, o Pentágono e a Casa Branca não responderam aos pedidos de comentário.
Nos Estados Unidos, os mercados de previsão são regulados como derivativos financeiros pela Commodity Futures Trading Commission. Como muitos participantes do mercado usam futuros para se proteger contra riscos aos seus próprios negócios —como um agricultor preocupado com a produtividade das colheitas— o regulador permite negociações “informadas”.
No entanto, é ilegal “negociar com base em informações que foram apropriadas indevidamente de outra pessoa a quem legitimamente pertencem”, disse Peter Malyshev, sócio do escritório de advocacia Sidley. Um funcionário do governo que usasse informações obtidas no exercício de sua função estaria igualmente negociando com as chamadas informações materiais não públicas, disse Malyshev.
Diferentemente dos mercados financeiros tradicionais, todas as negociações e pagamentos na Polymarket são processados usando tecnologia blockchain, o que significa que as transações são públicas e podem ser rastreadas até carteiras únicas e anônimas que são visíveis para reguladores e traders rivais. Essa transparência ajudou a alimentar uma cultura online de apostadores caçando potenciais pessoas com informações privilegiadas e copiando suas negociações.
Democratas criticaram a suspeita de uso de informações privilegiadas na Polymarket. O senador Chris Murphy disse no domingo que era “insano” que apostas em ações militares fossem legais e disse que estava “apresentando legislação o mais rápido possível para proibir isso”.
A CFTC, que manteve uma abordagem de regulação leve para a economia de mercados de previsão em rápido crescimento, emitiu um comunicado na quarta-feira afirmando que tem “autoridade plena para policiar práticas de negociação ilegais” em mercados de previsão, incluindo a “apropriação indevida de informações confidenciais”, fraude e manipulação. A CFTC se recusou a comentar mais.
No primeiro caso do tipo, Israel no mês passado abriu processos contra dois reservistas suspeitos de usar informações classificadas para apostar nas operações militares do país.
O FT identificou oito contas que lucraram um total de US$ 405 mil (R$ 2,1 milhões) com apostas incomumente grandes em probabilidades longas sobre ação iminente das Forças de Defesa de Israel.
O FT também encontrou um padrão semelhante de apostas em um mercado relacionado à captura de Nicolás Maduro pelo governo dos EUA em janeiro.
A probabilidade implícita da remoção de Maduro do cargo permaneceu baixa durante todo dezembro e estava em cerca de 9% quando a operação dos EUA que o capturou começou nas primeiras horas de 3 de janeiro.
Seis contas foram criadas entre 30 de dezembro e 2 de janeiro que não tiveram atividade subsequente, apenas apostaram em tópicos relacionados à Venezuela e mantiveram um histórico de apostas perfeito. Elas coletivamente apostaram US$ 9.807 (R$ 51 mil) a preços que mais tarde pagariam US$ 133.878 (R$ 694 mil).
Além disso, uma sétima conta, que foi criada apenas alguns dias antes, fez US$ 32 mil (R$ 166 mil) em apostas em mercados relacionados a Maduro, lucrando US$ 404.222 (mais de R$2 milhões).
Nem todas as apostas suspeitas vêm de pessoas com informações privilegiadas, no entanto. Vários traders postando no X no início deste mês acreditavam ter identificado alguém com informações privilegiadas apostando que os EUA atacariam o Irã antes de 9 de fevereiro, depois que uma carteira, que havia feito apenas uma aposta anterior, fez uma grande aposta em probabilidades de apenas 2,5%.
Nenhum ataque ocorreu, e a conta acabou perdendo quase US$ 100 mil (R$ 518 mil).