Participei da PDAC 2026, em Toronto —uma das maiores conferências globais de recursos naturais. O que começou, há mais de nove décadas, como um pequeno encontro de geólogos exploradores, transformou-se em um fórum estratégico que reúne cerca de 30 mil participantes, mais de 1.300 expositores, 700 painelistas e representantes de mais de 120 países.
Participação de dezenas de empresas brasileiras e investidores, mas novamente notória a ausência da presença do governo em primeiro escalão.
Mas a relevância da PDAC não está apenas nos números. Está na direção estratégica. É ali que se discutem minerais críticos, transição energética, financiamento responsável, inovação tecnológica e padrões cada vez mais rigorosos de sustentabilidade e governança.
Em meio a essa Babilônia de perspectivas, um “case” especifico jogou luz em um desafio estratégico do Brasil.
O Brasil detém aproximadamente 23% das reservas mundiais de terras raras —a segunda maior do planeta. Esses minerais são fundamentais para turbinas eólicas, veículos elétricos, sistemas de defesa e tecnologias digitais.
No entanto, seguimos enfrentando obstáculos conhecidos: ausência de refinarias, alto custo de processamento, dependência tecnológica para separação e purificação e um ambiente regulatório complexo.
O desafio central é claro: superar o papel de mero exportador de commodity e desenvolver uma cadeia produtiva nacional com maior agregação de valor. Isso exige domínio de tecnologias sofisticadas de separação, formação de fornecedores especializados e coordenação entre setor privado, academia e políticas públicas consistentes. Sem isso, corremos o risco de ocupar, mais uma vez, a posição periférica nas cadeias globais
Muito do discurso atual vem colocando esse desafio como obstáculo intransponível. Para um país com mais de 200 milhões de h abitantes, uma das dez maiores economias do mundo e com reconhecida capacidade técnica, estaríamos colocando o sarrafo baixo demais? Permanec er no “berço esplêndido” pode ser confortável, mas não é estratégia.
A cerca de 10 mil quilômetros ao norte do principal polo brasileiro de terras raras está a província de Saskatchewan, no Canadá. Com pouco mais de um milhão de habitantes e um PIB que oscila entre o quinto e o sexto lugar entre as províncias canadenses, a região decidiu agir.
Diante das barreiras tecnológicas da cadeia de valor de terras raras, organizaram-se por meio do Saskatchewan Research Council (SRC), uma corporação parcialmente subsidiada pelo governo provincial. Investiram de forma estruturada em pesquisa, desenvolvimento, demonstração tecnológica, exploração e expertise geoanalítica voltadas ao processamento mineral.
A divisão de terras raras do SRC foi criada em 2020 com meia dúzia de profissionais. Até o final deste ano, chegará a cerca de 250 especialistas. Trata-se de um exemplo concreto de como tratar um desafio estratégico com visão de longo prazo, coordenação institucional e ambição tecnológica.
O Canadá compreendeu que minerais críticos não são apenas ativos geológicos —são instrumentos de desenvolvimento, política industrial e posicionamento geopolítico.
O Brasil já demonstrou capacidade semelhante no agronegócio. Décadas de investimento em pesquisa, tecnologia e modernização, incluindo a criação da Embrapa e parcerias internacionais (como JICA), transformaram vantagens naturais em liderança global. O agro competitivo internacionalmente não nasceu por acaso; foi resultado de estratégia e ação consistentes.
Por que, então, mantemos um fosso tão grande entre nosso potencial mineral e o apoio financeiro, tecnológico e institucional necessário para desenvolver uma mineração sustentável e integrada às cadeias globais de valor?
A atual turbulência geopolítica impõe barreiras, mas também cria oportunidades. A reconfiguração das cadeias de minerais críticos abre espaço para parcerias estratégicas —inclusive entre Brasil e Canadá— voltadas ao desenvolvimento conjunto de soluções tecnológicas e industriais para a transição energética.
Terras raras não são apenas um tema mineral. São um teste de maturidade estratégica e um componente central para a geopolítica e desenvolvimento econômico brasileiro.
Podemos continuar exportando potencial. Ou podemos decidir transformá-lo em capacidade, tecnologia e protagonismo. É hora de saltar do berço esplêndido e vermos uma transformação radical do papel do governo, de parcerias estratégicas e da coordenação do setor privado brasileiro na mineração brasileira.
O verdadeiro desafio não está na geologia ou tecnologia, mas no direcionamento estratégico nacional.