Em um novo desenvolvimento na guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel no sábado passado (28), o Irã promoveu ataques a vizinhos nesta quinta-feira (5) devido ao temor de que Washington incite separatismos a partir de grupos étnicos comuns aos dois lados das fronteiras.
A ação mais dura foi contra o Curdistão iraquiano, onde Teerã disse ter atingido sete bases de milícias que atuam de forma semiautônoma. “Atacamos as sedes de grupos curdos opositores à revolução [islâmica do Irã] com três mísseis”, disse a agência estatal Irna.
O Iraque já havia sido objeto da retaliação iraniana pela guerra, com drones e mísseis lançados contra bases americanas na região. Em Irbil, no norte do país, as ações foram feitas por grupos rebeldes pró-Irã bancados por Teerã.
O ataque ocorre após dois dias de relatos acerca de um plano da CIA, a agência de espionagem americana com longa história na região, para fornecer armas aos curdos iraquianos para que eles atravessem a fronteira e fomentem um movimento separatista no Irã.
As províncias da fronteira oeste da teocracia têm maioria curda, etnia que compõe cerca de 10% dos 93 milhões de iranianos —o maior grupo é o persa, com aproximadamente 50% da população. Sob o regime islâmico instalado em 1979, os curdos sofreram grande repressão em sua busca por autonomia.
Houve inúmeros conflitos ao longo dos anos, mas em 2022 eles foram evidenciados ao mundo quando uma jovem curda iraniana, Mahsa Amini, morreu na cadeia após ser presa por usar um véu islâmico de forma que não agradou a uma patrulha da polícia religiosa.
O caso disparou enormes protestos no país, só suplantados pela onda de manifestações do começo deste ano, duramente reprimida e que serviu de desculpa inicial para Donald Trump avançar o plano de atacar o Irã.
O presidente do Curdistão iraquiano, Nechirvan Barzani, buscou baixar as tensões. A região, disse ele, “não deve ser parte de nenhum conflito”.
O problema é que os grupos armados pela CIA, segundo os relatos disponíveis, são dissidentes do governo local. É uma confusão enorme, pois os americanos são aliados de Bagdá, que não quer ver a guerra entrar em seu território.
Mas o movimento mais surpreendente do dia ocorreu no Azerbaijão, primeiro país sem presença de militares americanos ou ocidentais que foi atingido pela guerra. Ao menos quatro pessoas ficaram feridas quando dois drones iranianos atingiram o aeroporto de Nakhchivan.
A região é um encrave azeri entre o Irã e a Armênia, e o terminal atingido fica a cerca de 10 km da fronteira iraniana. “O ataque contraria a lei internacional e contribui para as tensões elevadas na região”, afirmou a chancelaria em Baku.
O embaixador iraniano no país foi chamado para receber o protesto e um pedido de explicações. O governo azeri disse que se reserva o direito de “tomar as medidas de resposta apropriadas”, sem se explicar.
No Irã, cerca de 25% da população é azeri étnica, mas o grupo é bastante integrado à vida social e política do país. O líder supremo Ali Khamenei, morto no ataque de sábado, era um deles, por exemplo. Os azeris são aderentes do xiismo, ramo minoritário do Irã centrado em Teerã —curdos são na sua maioria sunitas.
Duas das 31 províncias iranianas se chamam Azerbaijão, e a etnia é prevalente também em outras duas.
Isso dito, Teerã sempre desconfiou das intenções de Baku, onde defensores do chamado Grande Azerbaijão ficaram especialmente salientes após a vitória do país sobre a vizinha Armênia acerca do controle do encrave de Nagorno-Karabakh, em 2023.
Além disso, o governo azeri é associado à Turquia, rival regional do Irã, e a Israel, que forneceu tecnologia militar vital. Além disso, Trump foi fiador de um acordo de paz entre Baku e Ierevan no ano passado, e está bancando a criação de um corredor econômico ligando Nakhchivan ao território princiaal do Azerbaijão
Nesse sentido, o ataque mais limitado ao aeroporto pode servir como um tiro de advertência acerca de intenções secessionistas.
Na quarta (4), a chancelaria iraniana havia feito um alerta acerca da necessidade de unidade nacional em tempo de guerra, falando explicitamente que combateria separatistas. Dado o cipoal étnico-confessional da região, é mais um barril de pólvora que o fogo do conflito pode incendiar.
Até aqui, além de Israel, a retaliação iraniana atingiu outros sete países no Oriente Médio. Houve também ataques pontuais contra uma base britânica em Chipre, e um míssil foi interceptado pela Otan rumo à Turquia na quarta.