O grupo de mídia Axel Springer fechou acordo para comprar o jornal britânico Telegraph por 575 milhões de libras (R$ 4,07 bilhões) em uma oferta que superou a proposta do Daily Mail e deve encerrar um tortuoso processo de venda que se estende por três anos.
O negócio fará com que um dos jornais mais antigos do Reino Unido, com fortes vínculos com o establishment britânico e o Partido Conservador, passe para propriedade alemã.
O Financial Times foi o primeiro a noticiar o interesse de última hora da Axel Springer no Telegraph, como parte de um consórcio liderado pelo proprietário do New York Sun, Dovid Efune, no mês passado.
No entanto, nos últimos dias, a editora alemã por trás do Bild e do Politico começou a negociar um acordo por conta própria com a RedBird IMI, o grupo americano-emiradense que controlava o jornal de tendência direitista.
Uma pessoa próxima da negociação disse que a Axel Springer agiu rapidamente para alcançar o acordo, fechando as negociações em apenas três dias e pagando significativamente mais do que os 500 milhões de libras (R$ 3,53 bilhões) propostos pelo Daily Mail.
“A Axel Springer foi fundada em 1946 sob uma licença de imprensa britânica. Ele construiu sua empresa inspirado pela tradição de Fleet Street. O Telegraph era sua a estrela”, afirmou o CEO da Axel Springer, Mathias Dopfner, em comunicado nesta sexta-feira (6).
A perspectiva do “Torygraph” (trocadilho com os Tories, os conservadores britânicos) ter proprietários alemães deverá impactar entre os articuladores do poder conservador em Westminster.
O Telegraph, fundado em 1855, há muito defende o brexit, com muitos de seus colunistas mantendo uma forte linha editorial eurocética em seus artigos de opinião.
Embora Dopfner seja firmemente pró-europeu, o bilionário alemão tem sido crítico das instituições da UE e, no ano passado, elogiou JD Vance depois que o vice-presidente dos EUA criticou autoridades da UE por marginalizar partidos de extrema direita.
Em um email enviado aos funcionários nesta sexta, visto pelo Financial Times, Dopfner afirmou que as convicções do Telegraph estavam estreitamente alinhadas com as da Axel Springer.
“Apoiamos o direito de existência do Estado de Israel e nos opomos a todas as formas de antissemitismo. Acreditamos na aliança entre Europa e Estados Unidos. Defendemos uma economia de livre mercado e rejeitamos o extremismo e a discriminação em qualquer forma”, destacou.
O acordo também dará à Axel Springer uma posição há muito cobiçada na indústria de mídia britânica, tendo sido um dos grupos que buscou adquirir o Telegraph já em 2004. Onze anos depois, houve uma tentativa de comprar o Financial Times.
Dopfner disse que os sonhos da empresa “se tornaram realidade” e que a Axel Springer queria “fazer o Telegraph crescer, preservando seu caráter e legado, para ajudá-lo a se tornar o veículo de mídia de centro-direita mais lido e intelectualmente inspirador do mundo anglófono”.
A Axel Springer comunicou que investirá para fazer o jornal crescer, bem como para expandir o grupo nos EUA “aproveitando a expertise significativa de suas marcas de mídia Politico e Business Insider”.
“Desejamos todo sucesso à Axel Springer e ao Telegraph”, afirmou um porta-voz do Daily Mail, após o anúncio do acordo.
Efune disse ao FT que estava “feliz por ter desempenhado um papel significativo em orientar esse resultado positivo e ajudar a garantir o futuro de longo prazo do Telegraph”.
Um processo de venda prolongado deixou o Telegraph sem um proprietário permanente por cerca de três anos. A venda do jornal foi iniciada quando o Lloyds Banking Group assumiu o controle depois que a família Barclay não conseguiu pagar dívidas garantidas pelo jornal que possuía desde 2004.
Um acordo fechado pela RedBird IMI —o grupo de investimentos apoiado pelos Emirados Árabes Unidos—para comprar o Telegraph foi bloqueado pelo então governo conservador, devido a preocupações sobre passar o controle de um jornal influente para um fundo apoiado por um Estado estrangeiro.
Fechar um acordo com a Axel Springer será um alívio para a RedBird IMI, que tem buscado se desvencilhar do jornal há meses.
No entanto, a venda ainda será analisada pelo órgão regulador de mídia Ofcom e pela Autoridade de Concorrência e Mercados, embora a oferta tenha uma probabilidade menor de enfrentar os mesmos problemas que a do Daily Mail em relação à concorrência e pluralidade de mídia.