Donald Trump escreveu em sua rede social, na sexta (6), que não haverá acordo (“deal”) com o Irã a não ser em caso de “rendição incondicional”. Em tese, trata-se de qualquer situação em que uma força combatente deponha as armas e aceite condições quaisquer do inimigo, sem mais, mesmo que não lá draconianas. O assunto poderia dar pista sobre a suspensão da guerra e, pois, do seu efeito econômico (as consequências políticas vão longe).
O caso mais inequívoco, se não único, de rendição incondicional em guerra internacional moderna foi o do Japão de agosto de 1945. O império japonês se rendeu às ordens de depor armas e de desarmamento, entrega de territórios ocupados; aceitou ocupação militar, subordinação do governo ao ocupante e mudança de regime, para resumir exigências da Declaração de Potsdam (julho de 1945).
O Japão era estrangulado por um bloqueio naval americano, ficava sem comida e combustível, era arrasado por bombardeios convencionais, levou duas bombas atômicas em agosto e era atacado pela União Soviética, que declarou guerra entre os dias da destruição de Hiroshima e Nagasaki.
Se quiserem, as forças aéreas de EUA e Israel podem devolver o Irã à idade da pedra lascada. Os americanos não fizeram tal coisa nem com o Vietnã, front quente da Guerra Fria. Foram derrotados politicamente, mesmo tendo estratégia de longo prazo. O horizonte de Trump pode ser um rebuliço de mercados financeiros ou o risco de perder a maioria no Congresso no final do ano.
Isto posto, o que quis dizer com “rendição incondicional”? Na tarde de sexta, disse que pode ser algo que os iranianos “anunciem” (sic), “mas pode ser também quando eles não puderem mais lutar por não ter mais ninguém ou nada com que lutar”. Pode ser qualquer coisa que sirva para Trump alardear vitória. Por ora, pois, ele depende de quem manda no Irã. A dúvida é saber como vai reagir à irritação política ou econômica doméstica —até agora, seu prestígio baixo não caiu com a guerra. Mas a gasolina encarece 14% em uma semana.
Estudiosos de guerra dizem que o destino do conflito depende da capacidade iraniana de continuar a atirar (a contagem é incerta) e da capacidade dos países do Golfo de abater mísseis e drones, do que talvez se saiba algo na semana que vem. Quanto mais o Irã atirar, mais tempo fará falta o petróleo que passa por Hormuz, 20% do consumo mundial (80% disso vai para a Ásia).
O preço do Brent subiu 28% na primeira semana de guerra, para cerca de US$ 93. Na média de março de 2022, mês seguinte ao do ataque da Rússia à Ucrânia, o Brent fora a US$ 112, ante US$ 85 na média de janeiro. De março a agosto, média de US$ 108. Em dezembro, voltara a US$ 81. Essa alta ajudou a engordar a carestia de 2022, que virou eleições pelo mundo. Não causou recessão.
O encarecimento de agora está longe de ser descabelado, até porque a economia do petróleo mudou. Há mais produção nas Américas; neste século, o peso do petróleo no PIB mundial caiu 36%. Ainda não está perto um cenário “Ucrânia”, que dirá choque como o dos anos 1970, que muito contribuiu para mudar a história política e econômica do mundo. Mas também não há ponto crítico visível para o fim do conflito: asfixia militar do Irã, queda maior do prestígio de Trump ou tumulto financeiro. A história de “rendição incondicional” trumpiana significa apenas “deixar como está para ver como é que fica”. A luta continua.
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