Quando utilizamos o celular, estamos diante de uma infraestrutura de US$ 15 trilhões (R$ 78 trilhões). Do outro lado da tela, uma máquina sofisticada mede, observa e responde aos nossos desejos e comportamentos mais íntimos. Para o professor e escritor Peter Schmidt, 29, essa não é uma situação de autonomia, mas um risco à liberdade.
Schmidt é um dos fundadores do coletivo Amigos da Atenção, que nasceu após a Bienal de São Paulo de 2018. O grupo, que mantém uma escola no Brooklyn (EUA), defende o “ativismo da atenção” contra o que chamam de “human fracking”, numa referência à exploração de petróleo preso em rochas profundas.
O conceito diz respeito à fragmentação e mineração da subjetividade humana pelas big techs.
Em entrevista feita na sede da Folha, na quinta-feira (5), o editor do livro-manifesto “Attensity! A Manifesto of the Attention Liberation Movement”, ainda sem edição brasileira e escrito com mais 30 pesquisadores e ativistas, explica por que a economia da atenção é personificada por figuras como Donald Trump e como a resistência brasileira às plataformas serve de exemplo global.
O título do livro é um neologismo, que em português seria traduzido para algo como “atensidade, uma capacidade de direcionar a atenção de forma plenamente livre”, segundo o texto. O material foi editado junto com D. Graham Burnett, professor de história da Universidade de Princeton, e pela cineasta Alyssa Lowe.
O que o sr. define como “máquina de US$ 15 trilhões”?
É o valor de mercado somado das seis empresas mais poderosas do mundo. O modelo de lucro delas consiste em capturar, fragmentar e monetizar nossa atenção. Quando uso meu celular, do outro lado há esse aparato medindo e respondendo ao meu comportamento. Não há autonomia nisso. É uma indústria que gera um tipo específico de atenção: a quantitativa e cibernética.
Essa definição de atenção tem origem militar?
Sim. Esse modelo de atenção produtiva e mensurável foi desenvolvido em laboratórios americanos e ingleses durante o século XX, patrocinados pelas Forças Armadas. O objetivo era otimizar a habilidade de soldados em detectar ameaças em telas de radar. Hoje, essa mesma lógica de laboratório é aplicada para maximizar nosso tempo de tela. É uma atenção estreita, que ignora a curiosidade e o carinho.
O pesquisador Jonathan Haidt afirma que as gerações atuais estão perdendo habilidades cognitivas devido às redes. O senhor concorda?
Concordo. Nossa atenção é a base da habilidade de pensar, socializar e imaginar. Quando isso vira mercadoria, a cognição é deformada. Vivemos em uma “monocultura da atenção”. Se a floresta é derrubada para dar lugar à soja, o ambientalista quer recuperar a diversidade da mata. O mesmo vale para a mente: precisamos recuperar a diversidade de formas atencionais que as máquinas estão destruindo.
O desenvolvimento do seu livro e do grupo começou no Brasil. Como foi essa ligação?
Tudo começou na Bienal de São Paulo de 2018, cujo tema era atenção. O evento ocorreu uma semana após a eleição de Jair Bolsonaro. Ali, percebemos que a atenção não era apenas uma categoria estética da arte, mas uma questão de justiça e política, devido à influência das mídias sociais no processo democrático. Formamos então os Amigos da Atenção, inspirado nas sociedades quacres.
Como as plataformas afetam a democracia e figuras como Donald Trump, reeleito nos EUA no ano passado?
A vida informacional hoje reside em plataformas que selecionam conteúdo pelo estímulo ou pela irritação. Isso é violento. A democracia exige considerar outras perspectivas e colaborar, o que se torna impossível quando nossas capacidades cognitivas estão degradadas. Se a economia da atenção fosse uma pessoa, seria Donald Trump. Ele é o mestre desse mundo, mas também um produto dele. Vemos o mesmo fenômeno com outros líderes autocráticos pelo mundo.
Quando eu uso meu celular, do outro lado da tela tem uma máquina de US$ 15 trilhões muito sofisticada, que mede, observa e responde aos meus desejos e comportamento mais preciso. Isso é muito perigoso. Não é uma situação de autonomia, nem de liberdade.
O senhor nasceu no Missouri (EUA), um estado que se tornou profundamente republicano e onde a confiança em vacinas caiu. Esse movimento na vida cívica, também visto no Brasil, está ligado à economia da atenção?
Sim. As big techs aprenderam que a maneira mais eficaz de reter a atenção é exibir conteúdo que confirme as crenças políticas do usuário. Devido ao modelo de negócio do human fracking, cada pessoa passa a habitar um mundo privado de informação, desenhado para maximizar seu tempo de tela.
Nessa estrutura, torna-se impossível considerar perspectivas alheias. Tenho familiares em espectros políticos opostos e é difícil até acessar o universo de informações que eles consomem. A internet deixou de ser um espaço comum; ela hoje é composta por 8 bilhões de mundos distintos. Não é possível morar em isolamento, muito menos fazer política assim.
Big Techs afirmam que sua missão é conectar pessoas e oferecer refúgio ou oportunidades econômicas. Essa conexão ainda é real diante da exploração da atenção?
Há um paradoxo. Vivemos o momento de maior conexão interpessoal da história, mas enfrentamos uma crise de solidão. Isso ocorre porque essa conexão não nutre nossas vidas. Estamos conectados por uma infraestrutura social cuja função não é apoiar relacionamentos, mas extorqui-los. É como se estivéssemos todos juntos, mas dentro de uma fábrica onde somos explorados. Valorizamos a ideia de conectar o mundo, mas não por meio de um espaço projetado para nos exaurir.
Leis que proíbem ou limitam o acesso de redes sociais para menores, como discutido na Austrália e no Brasil, são o caminho? Por que houve uma relação negativa por parte de crianças e adolescentes a esses limites?
O foco nas crianças é uma estratégia política para impulsionar a regulamentação, mas é apenas uma resposta, não a solução. Proteger crianças não resolve a exploração sistêmica. O celular não deveria ser uma ferramenta de extração de valor. Em um mundo ideal, não precisaríamos dessas leis porque a tecnologia serviria à vida humana, em vez de extorquir relacionamentos.
O senhor propõe a criação de “santuários”. O que seriam?
O ativismo da atenção atua em três frentes. Primeiro, o estudo: prestar atenção à própria atenção. Segundo, a organização: criar comunidades (como grupos de jornalistas ou times de futebol) que valorizem a atenção como algo que não tem preço. E, por fim, os santuários: espaços físicos ou durações de tempo — como um parque ou uma roda de samba — protegidos da pressão da economia digital. É o que chamamos de resistir ao human fracking, que isola as pessoas em 8 bilhões de mundos distintos, impedindo a vida política comum.
Como o grupo Amigos da Atenção funciona hoje?
Fundamos uma escola sem fins lucrativos no Brooklyn em 2023. Realizamos seminários sobre poesia, desenho urbano e legislação. Somos um coletivo internacional.
Fazemos workshops principalmente na nossa sede, não há apresentações por videoconferência. Já realizamos eventos presenciais no Rio de Janeiro, há uns anos, em parceria com uma escola de artes visuais de lá, assim como na Irlanda e na Espanha. Neste ano, também pretendemos ir à Inglaterra.
Além disso, o livro é um manifesto editado por mim, pelo professor D. Graham Burnett e pela cineasta Alyssa Lowe, mas construído com mais de 30 colaboradores.
Há planos de publicar o livro no Brasil?
Estamos muito interessados. O Brasil tem uma cultura de resistência às big techs muito mais sofisticada que a dos Estados Unidos. A suspensão do X (antigo Twitter) e as discussões sobre tributação mostram que o país está liderando esse debate. Queremos convidar os líderes e organizações brasileiras a nos ensinarem como trabalhar juntos.
RAIO-X – PETER SCHMIDT, 29
Formado pela universidade Princeton, Schmidt é diretor da Strother School of Radical Attention e editor do livro-manifesto “Attensity! A Manifesto if the Attention Liberation Movement”, escrito em 60 mãos. Antes, foi pesquisador no Instituto Igarapé, no Brasil, analisando a relação entre mudanças climáticas e violência armada.