Com os preços do petróleo disparando e o conflito no Oriente Médio se intensificando, os riscos econômicos para a China estão aumentando.
O preço do petróleo na segunda-feira (9) atingiu níveis não vistos em quatro anos, uma semana após os Estados Unidos e Israel lançarem um ataque contra o Irã, aliado e parceiro financeiro da China. Os combates interromperam praticamente todo o tráfego pelo Estreito de Ormuz, uma passagem crítica para a energia e as mercadorias da China.
A China tem muito a perder com a ampliação do conflito. No Irã, a China encontrou uma fonte barata de petróleo nos últimos anos. Em toda a região, encontrou governos interessados em seu conhecimento em energia renovável e tecnologia. A China tornou-se dependente, como grande parte do resto do mundo, do fornecimento de petróleo e gás do Oriente Médio.
A importância da região para a China tornou-se ainda mais pronunciada no último ano, à medida que a rivalidade comercial do país com os Estados Unidos se intensificou e ele não conseguiu vender muitos produtos para o mercado americano, outrora o maior mercado da China. Os Emirados Árabes Unidos tornaram-se o mercado de crescimento mais rápido para carros chineses. A demanda da Arábia Saudita e de seus vizinhos por aço chinês dobrou. As exportações da China para o Oriente Médio cresceram quase duas vezes mais rápido do que suas exportações para o resto do mundo em 2025.
O investimento chinês também está crescendo mais rápido lá do que em qualquer outro lugar do mundo.
“A região é basicamente considerada o maior potencial de crescimento para a China”, disse Dan Wang, diretora da China no Eurasia Group. De 2019 a 2024, a China investiu US$ 89 bilhões diretamente no Oriente Médio, disse Wang.
Esses laços comerciais estão agora na linha de fogo enquanto os militares dos EUA e de Israel atacam o Irã, e o Irã revida contra portos, navios, oleodutos, usinas de dessalinização, data centers e outras infraestruturas críticas em toda a região. O trânsito marítimo não apenas de energia, mas de mercadorias transportadas em navios porta-contêineres gigantes pelo estreito de Ormuz está ameaçado.
A China também tem crédito em risco, tendo concedido empréstimos para contratos e projetos em toda a região.
A parcela do portfólio global de empréstimos e doações da China para a região dobrou para 10% em 2023, de acordo com a AidData, um instituto de pesquisa da William and Mary em Williamsburg, Virgínia. Instituições financeiras estatais concederam empréstimos a refinarias de petróleo e portos marítimos que financiam a produção e o transporte de commodities.
No Catar, bancos chineses estão ajudando a financiar e construir uma grande expansão de uma instalação de produção de gás natural liquefeito. A gigante estatal chinesa de petróleo Sinopec detém uma participação no projeto de expansão North Field East da instalação. As instalações foram atacadas na semana passada.
Investidores chineses financiaram a expansão do Porto de Haifa, em Israel, e do Porto Khalifa, nos Emirados, e os terminais resultantes são de propriedade e operados por empresas chinesas.
No Irã, dezenas de empresas chinesas financiaram, construíram e operam infraestrutura, redes elétricas e plantas petroquímicas.
A China também é a maior investidora em dessalinização no Oriente Médio, onde a água potável é escassa. Quase todos os projetos foram construídos pela Power Construction Corporation of China, com projetos na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Iraque.
“Há tantos países e tantos ativos espalhados pela região”, disse Brad Parks, diretor executivo da AidData. “Pudemos ver no fluxo de negócios que havia muito entusiasmo em fazer cada vez mais trabalho no Oriente Médio.”
Grandes empresas de tecnologia chinesas, incluindo Huawei, Alibaba e Tencent, estabeleceram escritórios em Dubai, Emirados Árabes Unidos, onde funcionários trabalham em um complexo que inclui Microsoft, Meta e Google. Três marcas chinesas de smartphones —Transsion, Xiaomi e Honor— estão ganhando participação de mercado na região, atrás da gigante sul-coreana Samsung, de acordo com a Omdia, uma empresa de pesquisa em tecnologia.
Não são apenas grandes empresas buscando fortunas no Oriente Médio.
Em 2018, Haiyang Zhang, uma empreendedora chinesa, mudou-se para Dubai, a maior cidade dos Emirados e um centro de finanças internacionais e visitantes. Ela deixou um emprego em uma empresa chinesa este ano para iniciar seu próprio negócio ajudando investidores chineses a expandir em Dubai. Alguns de seus parceiros estão no setor de novas energias. Zhang acredita que Dubai continua sendo um lugar seguro para certos investidores chineses colocarem seu dinheiro, disse ela, mas está preocupada com o impacto de um conflito prolongado.
Na última semana, várias empresas chinesas com presença crescente no Oriente Médio instruíram seus funcionários na região a trabalhar remotamente. Em 1º de março, a gigante de tecnologia Baidu disse que pausaria seus serviços de robotáxi nos Emirados. A plataforma chinesa de entrega de comida Keeta indicou que seus serviços na região podem ser suspensos ou temporariamente limitados.
O Ministério das Relações Exteriores da China disse na semana passada que um cidadão chinês havia morrido e mais de 3.000 nacionais haviam sido evacuados do Irã. Não informou quantos cidadãos chineses estão na região.
O petróleo do Oriente Médio é crítico para a segurança energética da China. O país importa pouco mais da metade de seu petróleo bruto transportado por mar do Oriente Médio, e cerca de um quarto disso vem do Irã. Como países de todo o mundo, a China enfrenta custos de energia mais altos à medida que os preços globais sobem.
A China é a principal compradora de petróleo iraniano, que está sob sanção dos EUA, embora as importações representassem pouco mais de 13% do petróleo bruto transportado por mar que recebeu durante 2025, de acordo com a Kpler, uma empresa de dados do setor. A China também opera três grandes oleodutos, dois dos quais transportam petróleo da Rússia e do Cazaquistão. Ainda assim, uma perda do fornecimento iraniano forçaria a China a encontrar outras fontes, que seriam muito mais caras do que o petróleo com desconto que comprava de Teerã.
Apesar dos profundos laços financeiros da China no Oriente Médio, ela enfrenta os mesmos riscos que outros países, incluindo os Estados Unidos, que estão fortemente investidos e dependentes da região.
A China condenou os ataques de Israel e dos Estados Unidos e pediu a cessação dos combates. À medida que o conflito se intensificou, o principal diplomata da China, Wang Yi, manteve conversas com contrapartes no Irã, Omã, Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Mas as ameaças do Irã fizeram o tráfego no estreito de Ormuz despencar. E não é apenas energia que está sendo bloqueada. A gigante chinesa de navegação Cosco interrompeu reservas pelo estreito, e a Maersk, empresa holandesa, suspendeu certas rotas críticas no Oriente Médio.
Zhang, a empreendedora chinesa em Dubai, disse que observou empresas e executivos americanos evacuando da região, e para ela isso significa oportunidade.
“A motivação deles para evacuar”, disse ela, “é muito maior do que a dos chineses”.