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A raiz cultural da desigualdade de gênero – 09/03/2026 – Cecilia Machado

by Silas Câmara

A aprovação da ampliação da licença paternidade no Senado representa um passo importante para equilibrar as responsabilidades de pais e mães no cuidado com os filhos. Mas, apesar de promissora, a política chega tardiamente a um debate que o mundo discute —e implementa— há décadas.

Evidências recentes mostram que políticas familiares, como creches subsidiadas ou licenças parentais mais amplas, têm impacto mais limitado do que se imaginava sobre a desigualdade de gênero no longo prazo.

Elas ajudam em diversos aspectos —por exemplo, ampliam a participação das mulheres no mercado de trabalho e a divisão de tarefas no ambiente doméstico—, mas raramente eliminam as diferenças que ainda persistem entre homens e mulheres na sociedade.

A razão é que parte importante dessas desigualdades, que surgem justamente após o nascimento dos filhos, não é determinada apenas por incentivos econômicos ou legais, mas por normas sociais associadas ao papel de cada gênero.

Essas expectativas compartilhadas influenciam decisões dentro das famílias —como quem reduz horas de trabalho, quem assume maior responsabilidade pelo cuidado dos filhos e quem prioriza a carreira— e acabam reforçando desigualdades no mercado de trabalho.

Ao longo das últimas décadas, mudanças nas normas de gênero —associadas a uma visão mais progressista sobre a participação feminina no mercado de trabalho e na divisão dos cuidados com os filhos— contribuíram para reduzir essas desigualdades.

Mas grande parte dessa transformação ocorreu até os anos 1990, período a partir do qual o avanço na convergência entre homens e mulheres também desacelerou. Isso sugere que compreender como as normas sociais evoluem ao longo do tempo —e como podem ser alteradas— é condição indispensável para reduzir as desigualdades de gênero.

Normas sociais respondem a uma combinação complexa de mudanças econômicas, tecnológicas e culturais. A difusão da pílula anticoncepcional, por exemplo, permitiu às mulheres planejar a maternidade e investir em carreiras de longo prazo. Já a eletrificação das residências e a popularização de eletrodomésticos reduziram o tempo dedicado ao trabalho doméstico. A expansão da educação feminina completou esse processo, elevando o potencial de rendimentos das mulheres e alterando o equilíbrio de poder dentro de casa.

Mas há também espaço para mudanças nas normas por meio de informação e difusão social —terreno em que empresas e governos podem atuar. A presença de mulheres em posições de liderança altera expectativas e aspirações das gerações mais jovens, além de reduzir vieses entre homens ao tornar mais visíveis trajetórias profissionais femininas. Experimentos mostram ainda que intervenções relativamente simples podem alterar percepções sociais.

Discussões sobre igualdade de gênero no ambiente escolar, por exemplo, tornam as atitudes dos jovens significativamente mais favoráveis à participação feminina e à igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.

Normas sociais têm raízes profundas, mas não são imutáveis. A ampliação da licença-paternidade deve ser vista como um primeiro passo nessa direção. Ao alterar expectativas sobre o papel de homens e mulheres dentro da família, ela ajuda a reduzir desigualdades que começam muito antes do mercado de trabalho. Mas também aponta para um caminho mais amplo: políticas capazes de mudar normas sociais —como as que ampliam o protagonismo de mulheres em posições de liderança ou utilizam o ambiente escolar para moldar percepções— podem acelerar transformações que, de outra forma, levariam muito mais tempo para ocorrer.


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