A Raízen protocolou nesta terça-feira (10) pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R% 65 bilhões. A empresa, uma joint venture entre Cosan e Shell, enfrenta há meses uma crise por causa do endividamento.
Diferentemente do plano de recuperação judicial, em que todas as dívidas do grupo (trabalhistas, com fornecedores, bancos etc.) são renegociadas na Justiça, na recuperação extrajudicial a companhia escolhe um grupo de credores para fechar uma negociação e homologá-la depois junto ao Judiciário.
Também nesta terça, o Grupo Pão de Açúcar recorreu ao mesmo recurso, com dívida de R$ 4,5 bilhões.
A Raízen conseguiu adesão de detentores de mais de 40% do valor. Após o pedido, a empresa tem um prazo de 90 dias para elevar o atual apoio para a maioria simples (50% mais um), atingindo o quórum necessário para a validação do pacto.
Na semana passada, a empresa já havia afirmado que, se necessário, pode iria pedir recuperação extrajudicial. A empresa havia dito que avaliava se iria receber uma injeção de capital de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões da Shell. A Aguassanta Investimentos, fundo da família de Rubens Ometto, controlador da Cosan, se propunha a colocar os outros R$ 500 millhões.
O caminho da empresa até o atual cenário financeiro aconteceu rapidamente e se deu por uma série de fatores.
Uma das maiores empresas de energia e bioenergia do mundo, a Raízen é uma joint venture que opera, desde 2011, a bandeira Shell no Brasil e na Argentina. Em agosto de 2021, quando realizou o segundo maior IPO (oferta pública inicial, em inglês) da bolsa brasileira, a companhia levantou R$ 6,9 bilhões e era avaliada em R$ 74,4 bilhões.
À época, a expectativa do mercado era alta no crescimento de biocombustíveis e energia limpa, atividade da qual a Raízen é dominante no país.
O modelo de negócio, no entanto, foi colocado à prêmio com dificuldades adversas, como condições climáticas e o aumento das queimadas. Em situações como essa, a safra de cana é diretamente impactada e a produção de açúcar e etanol é reduzida, pressionando as receitas e margens da companhia.
Além disso, com a Selic acima dos 10% ao ano, a partir de 2022, a operação da companhia ficou ainda mais complicada. Com juro caro, ficou difícil injetar dinheiro novo na operação através da captação no mercado.
O forte movimento de expansão também cobrou seu preço. A aquisição da Biosev, em 2021, por um total de R$ 6,5 bilhões era apontada pela companhia como importante para ampliar o parque industrial de cana-de-açúcar no país. O negócio, no entanto se mostrou pouco rentável e exigiu altos investimentos em maquinário para aperfeiçoar as plantas da Biosev.
O próprio ciclo do açúcar, que até 2021 estava aquecido, acabou revertido. Fora isso, apostas mais sustentáveis, como o SAF (combustível sustentável de aviação) e o etanol de segunda geração, não deram retorno financeiro esperado.
No terceiro trimestre da safra 2024/2025, por exemplo, a Raízen registrou prejuízo de R$ 2,5 bilhões ante lucro de R$ 793 milhões no mesmo período do ano anterior.
Para a safra de 2025/2026, a deterioração dos resultados foi ainda maior: no 2° trimestre houve prejuízo líquido de R$ 2,3 bilhões e a dívida líquida ultrapassou R$ 53 bilhões.
Como forma de reverter prejuízos, a companhia passou a vender ativos, plantas de energia e usinas. Em julho do ano passado, a companhia vendeu as usinas Santa Elisa, por R$ 1,04 bilhão, e Leme, por R$ 425 milhões (ambas adquiridas da Biosev anteriormente), a usina Continental, por R$ 750 milhões, repassou projetos solares (pouco mais de R$ 1 bilhão) e negocia refinarias na Argentina que podem render US$ 1 bilhão.
A joint-venture formada com a Femsa pelo controle da rede de mercadinhos de bairro Oxxo, cambaleou e no mês passado a Raízen saiu formalmente do negócio.
Em outubro, a Raízen tentou cessar rumores e negou ao mercado que estivesse considerando uma recuperação judicial. Segundo fato relevante, a posição de caixa era “robusta”, com R$ 15,7 bilhões em disponibilidades.
Ainda assim, no mesmo comunicado a companhia afirmava que os acionistas controladores discutiam alternativas de capitalização para fortalecimento da estrutura de capital e estratégia de longo prazo.
Já na virada do ano, a Bloomberg afirmou que Shell e Cosan discutiam uma injeção de capital de R$ 10 bilhões. O BTG Pactual, que nos últimos anos ampliou sua participação acionária na Cosan, entraria como um potencial parceiro.
No último dia 9, a companhia comunicou a contratação de consultores financeiros e jurídicos para desenvolver alternativas de fortalecimento de liquidez e otimizar estrutura de capital. Foram chamados para assessoramento legal e financeiro os escritórios Pinheiro Neto, Cleary Gottlieb e Rothschild.
As atualizações dos balanços trimestrais e a contratação de advogados levaram a uma revisão das agências de classificação, que passaram a enxergar risco elevado na operação devido à alta alavancagem e geração de caixa fraco.