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Guerra no Irã pode impulsionar energia limpa e carvão – 12/03/2026 – Ambiente

by Silas Câmara

A guerra no Irã está interrompendo o fornecimento de petróleo e gás e elevando os preços de energia ao redor do mundo. E, para muitos ambientalistas, esse é um argumento poderoso para que os países reduzam o uso de combustíveis fósseis e migrem para energia eólica, solar e outras fontes renováveis.

Mas à medida que o caos força as nações a repensarem suas políticas energéticas, os resultados podem ser confusos —e as opções mais limpas nem sempre serão as vencedoras.

Alguns países na Europa e na Ásia podem tentar instalar mais turbinas eólicas, painéis solares e baterias para se protegerem contra aumentos no preço do gás natural, como muitos fizeram após a Rússia invadir a Ucrânia em 2022. Se os preços do petróleo permanecerem elevados, os carros elétricos podem se tornar uma opção mais econômica para motoristas do Brasil aos Estados Unidos.

“Essa mais nova turbulência mostra mais uma vez que a dependência de combustíveis fósseis deixa economias, empresas, mercados e pessoas à mercê de cada novo conflito”, disse Simon Stiell, chefe de clima das Nações Unidas. Investir em energia renovável, disse ele, é “o caminho óbvio para a segurança energética”.

No entanto, outros países podem responder à escassez de oferta queimando mais carvão —um combustível fóssil altamente poluente, mas barato e facilmente disponível— ou adotando o gás natural americano. E se o conflito no Irã causar aumento nas taxas de juros, isso pode tornar os novos sistemas de energia renovável mais caros, disseram analistas.

O governo Trump, por sua vez, tem incentivado as nações a usarem mais petróleo e gás e está promovendo os Estados Unidos como um fornecedor estável de combustíveis fósseis em uma era geopolítica perigosa.

“É como um teste de Rorschach“, disse David Victor, professor de políticas públicas na Universidade da Califórnia, em San Diego. “A guerra lembrou a todos da poderosa importância da segurança energética. E com esse lembrete, você tem respostas radicalmente diferentes.”

A guerra também ressalta uma mudança notável no cenário energético global. Durante anos, muitos líderes mundiais declararam o combate ao aquecimento global como prioridade máxima e pediram uma transição para fontes de energia mais limpas que não aquecessem o planeta.

Mas, recentemente, os crescentes riscos geopolíticos e comerciais levaram os países a buscar fontes domésticas de qualquer tipo de energia. Isso pode incluir energia solar ou nuclear, mas também carvão ou gás.

Uma corrida por energia

Os combates no Oriente Médio já expuseram vulnerabilidades nos mercados globais de energia. Cerca de 20% do petróleo mundial e grande parte do gás natural normalmente viajam de navio pelo Estreito de Ormuz, uma passagem estreita na costa sul do Irã.

Desde que a guerra começou, o Irã tem atacado navios-tanque no estreito, e o tráfego diminuiu drasticamente, cortando suprimentos críticos de energia. Os preços internacionais do petróleo subiram até um terço antes de cair um pouco nos últimos dias.

As ondas de choque foram profundas.

O Qatar, que fornece um quinto do gás natural liquefeito do mundo, interrompeu a produção de gás, levando a picos de preços e fechamento de fábricas em países distantes que dependem do combustível, incluindo Índia, Coreia do Sul e Taiwan.

No Vietnã, placas de “esgotado” estão aparecendo nos postos de gasolina. No Paquistão, autoridades pediram semanas de trabalho de quatro dias para economizar energia. Hungria e Croácia impuseram controles de preços sobre combustíveis domésticos.

No curto prazo, muitos países estão correndo para garantir suprimentos de energia onde puderem. Isso geralmente significa buscar petróleo, gás e carvão, que juntos ainda fornecem 80% das necessidades energéticas mundiais.

Na Tailândia, que normalmente importa grande parte de seu gás natural do Qatar, autoridades ordenaram que usinas de carvão domésticas operem em capacidade máxima e que a empresa nacional de petróleo e gás maximize a produção local para compensar a escassez. Em Taiwan, autoridades levantaram a possibilidade de reativar uma usina de carvão desativada.

Na Europa, onde os preços do gás natural subiram mais de 75% desde o início da guerra, as nações estão comprando mais gás natural liquefeito americano, superando as ofertas de países mais pobres como Paquistão e Bangladesh.

“No curto prazo, os países vão buscar energia onde puderem encontrar”, disse Kevin Book, diretor-geral da empresa de pesquisa ClearView Energy Partners. “Mas no longo prazo, há espaço para uma reavaliação.”

Repensando as importações de petróleo e gás

Dependendo da duração e gravidade do conflito no Irã, algumas nações podem buscar reduzir sua dependência de importações de petróleo e gás do Oriente Médio nos próximos anos, disseram especialistas.

Isso pode ser uma vantagem para os exportadores de gás americanos que podem oferecer uma alternativa ao gás transportado pelo Estreito de Ormuz. Na última década, graças aos avanços na tecnologia de fraturamento hidráulico (“fracking”), os Estados Unidos se tornaram de longe o maior fornecedor mundial de gás natural liquefeito, uma forma de gás que foi resfriado para transporte. Espera-se que as empresas americanas dobrem a capacidade de exportação até 2031.

“O argumento de segurança para o gás qatari foi realmente enfraquecido, e isso vai fortalecer muitos novos projetos de GNL por aí”, disse Ira Joseph, pesquisador do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia.

Alguns países no Sudeste Asiático e em outros lugares também podem recorrer a fontes domésticas de carvão, o mais sujo dos combustíveis fósseis, mas também amplamente disponível em muitas partes do mundo. Nos últimos anos, nações como Índia, Indonésia, Bangladesh e Paquistão têm desenvolvido novas usinas, e o consumo global de carvão atingiu recordes históricos.

“Se seu objetivo é energia produzida domesticamente, e você é a África do Sul, Indonésia ou China, o carvão parece muito bom do ponto de vista da segurança energética”, disse Jason Bordoff, diretor fundador do Centro de Política Energética Global.

Uma opção muito menos poluente seria os países investirem em fontes de energia renovável, como eólica e solar, que não requerem combustível e podem ajudar a blindá-los de oscilações voláteis nos mercados de gás e petróleo.

Uma análise recente da consultoria BloombergNEF sugeriu que o conflito no Irã pode impulsionar a energia solar e as baterias, ambas com custos em rápida queda. Ainda assim, há alguns obstáculos que mercados como Europa e Índia precisarão superar, incluindo congestionamento da rede, restrições de terreno e gargalos regulatórios.

A energia nuclear é outra opção. No Japão, que é altamente dependente de gás natural importado, autoridades têm gradualmente reiniciado usinas nucleares que foram fechadas em 2011 após o derretimento de um reator em Fukushima. Esses esforços podem ganhar nova urgência, já que cada usina nuclear geralmente substitui energia a gás.

Como tanto a energia limpa quanto os combustíveis fósseis podem se beneficiar do contexto atual, não está claro o que a mudança no cenário energético significará para as emissões de gases de efeito estufa.

A situação é um pouco diferente nos Estados Unidos.

Como os mercados de gás natural são altamente regionais, a produção recorde de gás dos EUA manteve o país relativamente protegido de choques de preços nessa área. O gás natural é a maior fonte de eletricidade americana, e o fato de permanecer barato significa que outras fontes como eólica, solar ou nuclear provavelmente não receberão nenhum impulso particular do conflito no Irã.

No entanto, o preço do petróleo, que é negociado globalmente, tem subido, o que por sua vez tornou a gasolina mais cara para os motoristas nos Estados Unidos. Isso pode tornar os veículos elétricos mais competitivos, de acordo com uma outra análise da BloombergNEF.

Hoje os preços da gasolina nos EUA estão em média cerca de US$ 3,50 (cerca de R$ 18) por galão. Se os preços subissem para cerca de US$ 4 (R$ 21) por galão, o custo total de possuir um carro elétrico como o Tesla Model Y seria aproximadamente similar ao custo total de possuir um Toyota RAV 4 a gasolina, por causa dos custos mais baixos de combustível, constatou a análise.

Ainda assim, há muitas complicações, disse Ethan Zindler, chefe de pesquisa de países e políticas da BloombergNEF.

“Os consumidores precisariam acreditar que os preços vão permanecer onde estão”, disse.

Os Estados Unidos, Canadá e Europa também impuseram tarifas e outras barreiras comerciais sobre veículos elétricos chineses, que são alguns dos mais baratos do mercado hoje. Alguns especialistas se perguntam se essas dinâmicas podem mudar se os preços permanecerem altos por tempo suficiente.

“A questão é se essa crise dura tempo suficiente para começar a mudar o pensamento de longo prazo das pessoas sobre política e estratégia energética”, disse Zindler. “Quanto mais os preços subirem, maiores as mudanças que poderemos ver.”

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