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Guerra no Irã: Big techs que apostaram no golfo viram alvo – 14/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

Em 2019, a Amazon construiu seu primeiro data center no golfo Pérsico, no Bahrein. Três anos depois, expandiu para os Emirados Árabes Unidos. Em 2024, iniciou mais de US$ 10 bilhões (R$ 53,2 bi) em novos projetos na Arábia Saudita.

As iniciativas ajudaram a Amazon a garantir sua posição em uma das regiões de crescimento mais acelerado do mundo, onde governos e investidores com recursos abundantes queriam participar da economia digital e da corrida pela IA (inteligência artificial).

“Estamos ansiosos para ajudar a impulsionar a inovação e o desenvolvimento de talentos em todo o reino”, disse Andy Jassy, CEO da Amazon, em uma visita à Arábia Saudita no ano passado com o presidente Donald Trump e outros executivos de tecnologia.

Mas os planos de Jassy foram lançados ao caos em 1º de março, quando drones iranianos danificaram o data center da Amazon no Bahrein e atingiram outros dois nos Emirados Árabes Unidos. Desde então, muitos clientes que dependiam dos data centers para poder de computação permanecem em situação indefinida.

As empresas de tecnologia dos EUA estão enfrentando uma nova realidade no golfo Pérsico duas semanas após o início da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. A região —vista como um refúgio seguro para investimentos, energia barata e regulamentação flexível— tornou-se um polo para a construção dos data centers necessários para criar e fornecer software de IA. Google, Microsoft, OpenAI e outras empresas americanas migraram para a área pelas economias em crescimento da região e suas convenientes conexões de transmissão online para a África e a Europa.

Em todo o Oriente Médio, os gastos totais com tecnologia para consumidores e empresas atingiram cerca de US$ 65 bilhões (R$ 346 bi) no ano passado, ante US$ 36 bilhões (R$ 191,6 bi) em 2020, segundo a empresa de pesquisa IDC. Os gastos com tecnologia para data centers e serviços em nuvem aumentaram 75% no ano passado, chegando a US$ 895 milhões (R$ 4,7 bi).

No entanto, à medida que a guerra se prolonga, as apostas das gigantes de tecnologia na região parecem cada vez mais vulneráveis.

Nesta semana, o Irã ameaçou ataques mais amplos contra “infraestrutura tecnológica inimiga” pertencente a sete empresas de tecnologia dos EUA —Amazon, Microsoft, Google, Palantir, Nvidia, IBM e Oracle. Na quinta-feira (12), Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo do Irã, aumentou as preocupações com um aviso vago de que o país estaria “abrindo outras frentes onde o inimigo tem pouca experiência”.

Incentivadas por Trump, que ajudou a intermediar acordos entre gigantes de tecnologia dos EUA e nações da região, as empresas de tecnologia minimizaram os riscos geopolíticos de colocar infraestrutura crítica em uma das partes mais voláteis do mundo. Agora, a guerra que o governo Trump iniciou ameaça transformar sua própria estratégia de ganhar vantagem na corrida da IA em um grande passivo.

Nas últimas semanas, a indústria de tecnologia aprendeu lições com as quais produtores de petróleo e bancos globais têm lutado para lidar há décadas, com bilhões de dólares em investimentos em IA sendo questionados.

“O setor de energia tem muito mais experiência em lidar com riscos geopolíticos tradicionais do que o setor de tecnologia”, disse Steffen Hertog, professor da London School of Economics and Political Science, especialista nas economias do golfo. “A maioria dos investidores não ligados à energia no golfo subestimou os riscos antes da guerra atual, incluindo as empresas de tecnologia dos EUA.”

Depois que os data centers da Amazon foram danificados por drones iranianos, muitas empresas na região perderam acesso às suas redes.

“Eles foram derrubados”, afirmou Simon Williams, ex-funcionário da Amazon que agora é executivo na empresa de IA Atelic AI, em Dubai. “Perdemos todo o acesso aos nossos servidores. Isso teve um grande impacto nos nossos negócios.”

Williams está otimista de que a região continuará sendo um polo de investimento em tecnologia, embora ele próprio não tenha conseguido contatar representantes da Amazon para recuperar o acesso a materiais importantes armazenados na nuvem da empresa.

“Tem sido uma caixa-preta”, afirmou. “Eles não tinham o melhor sistema de recuperação de desastres.”

A Amazon sugeriu que os clientes no Oriente Médio transferissem suas cargas de trabalho para data centers em outras regiões. Em comunicado, a empresa disse que estava “ajustando as operações em resposta à situação em evolução, incluindo pausas temporárias quando necessário”.

O Google disse que estava monitorando a situação e que “o foco está na segurança e no bem-estar de funcionários na região”. A Microsoft não quis comentar.

Dave Komendat, ex-diretor de segurança da Boeing, afirmou que os data centers são alvos atraentes em um conflito porque são uma nova forma de infraestrutura crítica. Depois que os data centers da Amazon foram atingidos, as empresas darão maior consideração aos riscos de segurança antes de construir, afirmou.

“Este é um evento de baixa frequência e alto impacto”, disse Komendat, agora sócio da empresa de consultoria em segurança Corporate Security Advisors. “Pode não acontecer novamente ou pode acontecer mais dez vezes.”

As questões ilustram a centralidade dos gigantes de tecnologia dos EUA nos confrontos geopolíticos, empurrando capacidades tecnológicas essenciais para áreas que podem transformá-las em pontos de estrangulamento.

Xiaomeng Lu, diretora da consultoria de gestão de riscos Eurasia Group, que estuda a relação entre tecnologias emergentes e geopolítica, disse que a guerra com o Irã prejudicará os esforços dos países do golfo para atrair grandes empresas de tecnologia, particularmente para os Emirados Árabes Unidos, que fazem fronteira com o Irã.

“Suas ambições são construídas com base na suposição de estabilidade geopolítica”, disse ela.

A magnitude do impacto final da guerra pode depender de como ela será resolvida. Se a guerra resultar em uma nova liderança iraniana menos confrontacional com os EUA e Israel, isso poderia trazer mais estabilidade e investimento, afirmou Lu. Mas se o regime iraniano for enfraquecido, mas permanecer no poder, isso poderia criar o risco de mais perturbações e conflitos nos próximos anos.

“O prazo é fundamental”, acrescentou ela. “Se a guerra terminar em um mês, as pessoas vão esquecer isso. Se continuar por meses e meses, estaremos em um território muito diferente.”

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