Home » Aos 60 anos, Ana Beatriz Nogueira discute sexo no palco – 14/03/2026 – Mônica Bergamo

Aos 60 anos, Ana Beatriz Nogueira discute sexo no palco – 14/03/2026 – Mônica Bergamo

by Silas Câmara

Ana Beatriz Nogueira se considera uma pessoa não muito afeita aos avanços tecnológicos. “Não fico muito na internet. O celular, esqueço de ligar. Às vezes desligo para ir ao teatro e, se não estiver esperando alguma resposta ou algo que precise saber, só ligo no dia seguinte.”

Também não costuma fazer pesquisas no Google. “Procurar meu nome, então, nem pensar. Deus me livre. Tem muita coisa ali que eu falo: Piraram”, comenta, rindo. Até mesmo a sua idade está errada na Wikipédia. “Lá eu sou um ano mais nova”, confidencia.

A data certa de seu nascimento é 22 de outubro de 1966, o que significa que Ana Beatriz vai completar seis décadas de vida neste ano. “Estou achando bacana fazer 60”, diz. “Às vezes, quando estou conversando com alguém de 30, penso: ‘Que estranho, tenho 30 anos a mais que essa pessoa, é muito tempo a mais’. Mas é só uma sensação. Não tenho nenhuma questão com o número.”

Apesar das restrições com a internet, afirma achar incrível o que a tecnologia também pode proporcionar, como a possibilidade de dar esta entrevista por videochamada: ela do Rio de Janeiro, a repórter de São Paulo. “Estou na minha casa e parece que a gente está tão pertinho, mas são cidades diferentes. Sou uma dinossaura, continuo achando graça nisso tudo”, diz.

Outra maravilha tecnológica, destaca, é o fato de novelas antigas poderem ser revisitadas a qualquer momento graças ao streaming. Dia desses, a atriz conta ter sido surpreendida no aeroporto por uma espectadora que estava muito brava com ela. O motivo era uma trama de 2011.

“Ela me falou assim: ‘Pare de maltratar a Manuela’. E eu falei: ‘Mas quem é Manuela?’ E fiquei explicando que não fiz de propósito. Mas só dentro do avião é que me veio: é a Marjorie Estiano, a Manuela de ‘A Vida da Gente'”. Na trama de Lícia Manzo, Ana interpretava Eva, personagem que gerava aversão no público por rejeitar e humilhar a filha mais velha, papel de Marjorie.

Em 45 anos de carreira, Ana Beatriz tem em seu currículo diferentes tipos vividos na TV, no teatro e no cinema. Agora, ela está nos palcos paulistanos no Teatro YouTube (antigo Eva Herz), no Conjunto Nacional, com “A Procura de uma Dignidade”, adaptação do conto homônimo de Clarice Lispector. Na história, faz uma mulher a caminho de um evento que acaba se perdendo e vai parar por engano nos corredores subterrâneos do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro.

“Enquanto procura a saída, ela acha coisas que não estava esperando. É assaltada por uma sexualidade, por um desejo que, como ela mesma diz, está fora de época, fora de estação [por ser uma mulher mais velha].”

A primeira vez que Ana montou o texto foi na pandemia. Na ocasião, dirigiu Sandra Pêra dentro do projeto Teatro Sem Bolso, idealizado pela atriz para apresentações filmadas ao vivo e com transmissão online de dentro da sua casa, onde possui um palco com toda a estrutura de um espaço profissional.

Posteriormente, conta que começou a refletir sobre a peça e chegou à conclusão de que ela não fala exatamente sobre o preconceito contra os mais velhos. “O espetáculo fala sobre a pessoa se sentir fora do jogo, fora da possibilidade das coisas da vida. E isso pode acontecer aos 25 anos, não tem a ver com idade cronológica. No caso da personagem, fica muito claro que é sobre uma parte sexual que ela acha que encerrou, mas pela qual é surpreendida”, diz.

Questionada se sente que está dentro do jogo neste aspecto, Ana ri: “Eu sinto. Sou animada.” Discreta sobre a sua vida pessoal, a atriz prefere não revelar se está em um relacionamento amoroso. “Estou bem”, despista.

Para a atriz, independentemente da forma como a sociedade vê as mulheres após os 50 anos, o essencial é como ela se vê. Ana Beatriz conta, por exemplo, já ter tido a sensação, ao reencontrar depois dos 40 uma pessoa com quem namorou aos 20 e pouco, que não era mais vista como uma possibilidade de namoro, que estava “fora da jogada”. “Mas isso é uma limitação do outro. A gente não pode perder nunca o nosso próprio olhar. O olhar do outro que vá passear. E se for da outra, pior ainda, porque uma mulher fazer isso…Se a gente está na pista é porque a gente se sente na pista.”

Foi a partir de todas essas reflexões que Ana decidiu montar novamente a peça, agora assumindo ela o papel da protagonista. A atriz admite que não é “muito boa captadora” de patrocínios, mas sempre dá um jeito de conseguir viabilizar as suas ideias. É assim há cerca de 15 anos. “Escolho o que quero fazer, invento projetos”, relata.

No caso de “A Procura de uma Dignidade”, a produção é bancada com recursos próprios. O dinheiro obtido pela venda de ingressos nas bilheterias é usado primeiro para pagar todos os profissionais envolvidos na peça. “Só depois, consigo saber se vou receber ou não algo.”

“Mas é tão importante fazer. Às vezes uma peça pode dar menos e a outra mais, você nunca sabe, é um mistério. Eu sempre digo: o que importa é a qualidade das coisas”, frisa. Neste caso, argumenta ela, “ainda que a pessoa não goste de mim, não tem problema, porque é tão bonito o texto da Clarice.”

Para meados do ano, Ana já tem uma outra montagem engatilhada: “Boa Noite, Mãe”, espetáculo que foi encenado nos anos 1980 no Brasil e fez grande sucesso com Nicette Bruno e Aracy Balabanian —neste caso, ela conta que a proposta foi aprovada para ser financiada por meio de leis de incentivo.

Estar no palco é algo de que Ana Beatriz não abre mão. “Vou empurrada no carrinho de supermercado, mas entro em cena.” A frase é dita ao comentar sobre um diagnóstico que recebeu há 17 anos: a esclerose múltipla [EM], doença neurológica crônica que não tem cura.

Ana faz questão de ponderar e demonstrar gratidão por apresentar a forma mais branda da enfermidade e ter acesso ao melhor tratamento disponível. “O que não me livra de ter uma piora significativa e perder alguma função [fala, andar] —embora isso não aconteça de uma hora para a outra. Mas se perder, vou continuar. Enquanto houver vida aqui, eu tô nessa”, frisa.

O principal sintoma que ela apresenta da EM é uma sensação de cansaço, que tende a piorar quando a temperatura está muito alta. “No começo, [a doença] é um mistério, mas depois você vai convivendo com aquilo. Como dizia [o ator] Paulo José, a vida é degenerativa. Eu só sei com um pouco mais de certeza que você que estou degenerando”, comenta.

A enfermidade ocorre quando células de defesa do organismo passam a atacar estruturas do sistema nervoso, provocando inflamação e lesões que dificultam a comunicação entre os neurônios. A doença pode afetar a fala, o equilíbrio e outras funções motoras.

Foi por causa do calor extremo que a atriz conta que teve de deixar o elenco de “Mania de Você” (Globo, 2024). Contratada da emissora, ela revela que sempre falou honestamente com a empresa sobre o seu diagnóstico. Há sete anos, também resolveu abordar o assunto de forma pública com o objetivo de ajudar outras pessoas também diagnosticadas com esclerose múltipla.

A escolha de falar sobre o tema tem o seu ônus, pondera ela. “Com certeza teve alguma pessoa ou outra que pode ter pensado: e se ela pifar [ao fazer um trabalho]?. Mas já fiz muitas novelas com a galera pifando, e eu, nada.”

A primeira vez em que tomou a decisão de interromper uma atuação foi em “Mania de Você” (2024). A situação foi atípica, diz. “Estava gravando num verão que não tinha há séculos, muito quente. De repente, a personagem foi parar em lugares fechados, de 50 graus de sensação térmica. Você vai um dia, dois, mas, se insiste, pode piorar o seu quadro”, explica.

Em 2022, Ana Beatriz recebeu um outro diagnóstico: câncer de pulmão. Assim como a esclerose, ela garante que não viu a notícia como uma sentença de morte ou como azar. “Não acho que o raio caiu de novo. Acho que de novo fui uma sortuda.”

“Por ter EM [esclerose múltipla], preciso me cuidar mais, faço mais exames. Talvez, eu tenha descoberto o câncer exatamente por ter EM e fazer tanto exame. Peguei a doença no comecinho. Não tive que fazer quimioterapia, não tive que fazer rádio. Prefiro pensar assim.”

Autor Original

You may also like

Leave a Comment