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Trumpices justificam maior gasto em defesa no Brasil? – 17/03/2026 – Opinião

by Silas Câmara

Com a política internacional cada vez mais imprevisível, um tema articulado pelo informal “Partido Militar” já percorre a agenda pré-eleitoral de 2026, à direita e à esquerda: o aumento dos gastos militares no país. Há justificativas para isso? Sim e não.

Pelo lado do “sim”:

1 – Temos hoje mais ameaças externas do que jamais tivemos desde o final da Guerra Fria. O colapso da ordem liberal do pós-Segunda Guerra Mundial precipita aumento de gastos em defesa em todo o mundo;

2 – O tipo de ameaças mudou. Se as “novas guerras” que definiram o cenário da segurança internacional desde os anos 1990 seguem ativas, com atores não estatais organizados tendo papel preponderante, há novos atores em cena que enlevam ainda maiores preocupações. As big techs e a concentração de contratos bilionários militares nas mãos de empresas como Palantir, SpaceX, OpenAI e Anduril representam a nova privatização da guerra, colocando esses atores também como fundamentais no cenário atual de defesa. Estamos em uma nova corrida armamentista, e quem não investir em defesa poderá ter dificuldades em manter sua soberania;

3 – Se a ação militar ilegal que sequestrou o autocrata venezuelano já indicava o início de uma nova era para a América do Sul, com a guerra no Irã Trump sinaliza estar disposto a quaisquer ações, independentemente de leis domésticas ou internacionais. Essa é a maior ameaça à paz internacional e à democracia desde os totalitarismos nazista e stalinista do século 20. A maquiagem legal que justificou a ação contra Maduro foi a categorização do discutível Cartel de los Soles como organização terrorista internacional, estratégia que agora os gringos buscam repetir para o PCC e o CV aqui no Brasil. Isso vindo daquele que é (era?) nosso principal parceiro na cooperação em defesa.

No entanto, pelo lado do “não”:

1 – Os documentos de Defesa brasileiros, “atualizados” (sic) em 2025, evidenciam que temos forças mastodônticas e doutrinas ineficazes e ineficientes para atuarem contra essas ameaças. Aumentar orçamento sem mexer na lógica é o equivalente a treinar cavalos e fabricar espadas para lutar uma guerra nuclear;

2 – Outro problema é a desorganização do setor de segurança brasileiro. Militares imiscuem-se em setores que não os seus de formação, como na segurança pública, e, mais recentemente, voltaram com toda a força para a política, mostrando que há uma desconexão ideológica de parte da caserna dos valores democráticos expressos na Constituição que deveriam defender. Há um enorme desequilíbrio no Brasil nas suas relações entre civis e militares, mas também entre os próprios fardados. Neste cenário, um aumento de gastos em defesa poderia acentuar problemas já graves da democracia brasileira.

3 – Por fim, o maior problema de aumentar o orçamento é saber para onde vai esse dinheiro. Entre os que o defendem, o primeiro argumento é seguir os padrões da Otan. No entanto, o país está longe da forma de se investir em defesa praticada pelos (nem tão) aliados do Norte. Em 2023, 5% do orçamento militar do Brasil foi gasto em investimento, 10% em custeio e injustificáveis 85% em pessoal! Na Otan, apenas 9 dos 29 membros gasta igual ou em torno de 50% do orçamento com pessoal. E o “Partido Militar” se organiza para isso: o plano de R$ 456 bilhões apresentado pelo Exército a Lula para a modernização da defesa aérea contra drones não tem como ser lido distante desse movimento político, em ano eleitoral, favorável ao aumento em defesa.

Gastamos mais com pensões e com salários de inativos do que com todo o resto que realmente importa. As Forças Armadas são um buraco negro da accountability democrática, e a sociedade brasileira, antes de resolver aumentar expressivamente os gastos militares, mesmo sob as mais relevantes justificativas de ameaças externas, precisa discutir, de forma madura, o que quer de seus cidadãos em armas.

Teríamos melhores capacidades de nos defendermos contra as atuais ameaças ao Brasil com um setor de segurança totalmente reestruturado de forma inteligente, cientificamente orientado, voltado às atuais ameaças, sob supervisão democrática da sociedade. O problema não é não termos 2% do PIB para a Defesa, e sim que gastamos mal, de forma ineficiente, ineficaz e não transparente o que já destinamos ao setor.

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