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Musical vê a vida e crises de Gal Costa, sem citar viúva – 18/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Antes de se tornar a cantora que marcaria a história da música brasileira, Maria da Graça Costa Penna Burgos aparece ainda criança, na sua Salvador natal, observando a mãe cantarolar e descobrindo, aos poucos, como seu próprio timbre guiaria sua existência. Assim começa “Gal, o Musical”, em cartaz no 033 Rooftop, em São Paulo.

A montagem percorre a trajetória da artista, nome central da tropicália e uma das vozes mais emblemáticas da MPB. Com texto de Marília Toledo e Emílio Boechat, e direção dividida entre Toledo e Kleber Montanheiro, o espetáculo revisita episódios marcantes da vida da cantora, da infância à adoção do filho Gabriel, em 2008.

No caminho, surgem personagens fundamentais, como os amigos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé, o seu grande amor, Lúcia Veríssimo, o diretor Gerald Thomas e o empresário Guilherme Araújo.

O espetáculo chega três anos após o filme biográfico “Meu Nome É Gal“, que teve a bênção da cantora, morta em 2022, e projeto essencial para o espetáculo.

Isso porque o contrato assinado pela cantora com a produtora Paris Cultural para fazer o longa previa ainda a montagem do musical, e protegeu a obra dos problemas com a administração do espólio da cantora, dividida entre o filho e a viúva Wilma Petrillo.

A dupla brigou na Justiça pela herança e pelo direito de cuidar do legado da cantora, o que atrasou ou impediu a edição de discos e singles inéditos. Duas fontes próximas de Petrillo afirmam que a empresário tentou reverter os direitos para que o musical passasse antes por sua avaliação. Procurada, a viúva não respondeu aos pedidos de entrevista.

Segundo Toledo, o contrato firmado com a cantora impediu que houvesse qualquer investida contra o musical. Petrillo sequer é retratada na montagem, já que o grosso da história vai até o célebre show “O Sorriso do Gato de Alice”, de 1993 —logo, antes de a cantora se relacionar com a empresária. O episódio da adoção de Gabriel é mostrado como uma espécie de epílogo da montagem.

Toledo já esteve à frente de outras biografias musicais recentes, como “Ney Matogrosso – Homem com H”, “Silvio Santos Vem Aí – O Musical” e “Adorável Trapalhão”, sobre Renato Aragão. Ela tinha planos de homenagear Gal em vida, tendo em vista seu envolvimento com o filme de Dandara Ferreira. “Ela estava curtindo muito a ideia de ver a própria vida contada no cinema, era muito presente, senti que no musical seria a mesma coisa”, diz a diretora.

Em vez de organizar a história por datas ou sucessos, os autores optaram por uma estrutura inspirada na chamada “jornada da heroína”, conceito da psicóloga junguiana Maureen Murdock. A ideia propõe uma narrativa centrada em conflitos internos e processos de transformação, em contraponto à tradicional “jornada do herói”, de Joseph Campbell.

Três figuras mitológicas que representam aspectos da psique da cantora acompanham a protagonista, dialogando com episódios de sua trajetória, como o início da carreira, os confrontos com a crítica e as crises emocionais.

Ainda que no palco fosse intensa e exuberante, Gal era descrita por amigos como reservada e introspectiva. A tensão entre essas duas dimensões aparece como um dos motores da narrativa. Para dar conta disso, o jornalista Thales Braga, que prepara uma biografia da cantora para a Companhia das Letras, ficou encarregado de uma pesquisa profunda.

A escolha de Gal Costa como protagonista também responde a um movimento de revisão histórica, de acordo com os criadores. Durante décadas, o papel da cantora foi frequentemente reduzido ao de intérprete das ideias de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

“Estudos recentes destacam a participação ativa dela na construção estética do tropicalismo. O papel de Gal foi maior do que a imprensa da época reconhecia”, diz o diretor Kleber Montanheiro.

O repertório costura canções de diferentes fases da artista, entre elas “Baby”, “Vapor Barato” e “Brasil”, interpretadas pela atriz Walerie Gondim, que dá vida à cantora. Gondim volta a viver Gal pouco tempo após sua participação no programa Altas Horas viralizar nas redes. A atriz já havia interpretado a cantora, no ano passado, no musical que homenageou Djavan, “Vidas pra Contar”.

Nem por isso Gondim pôde pular os testes. A atriz participou da primeira seleção em Salvador e depois enfrentou novas fases de audição em São Paulo. Interpretar a cantora, porém, nunca esteve em seus planos. “As pessoas até diziam que minha voz tinha alguma semelhança, mas daí a viver a Gal, é muita responsabilidade”.

Algumas canções aparecem em contexto cronológico, reproduzindo momentos da sua carreira. Outras servem à dramaturgia como comentários sentimentais.

Em busca de satisfazer o gosto diverso do público, a produção decidiu preparar ainda um pré-show. A cada sessão, parte do elenco vai apresentar alguns hits que ficaram de fora da seleção final de Toledo, Boechat, Montanheiro e do diretor musical Daniel Rocha.

Já a cenografia explora o espaço do teatro como uma instalação imersiva, inspirada em obras do artista Hélio Oiticica. Em vez de um palco tradicional, o espetáculo ocupa diferentes áreas do ambiente, aproximando plateia e atores. “O tropicalismo misturava referências, cores, linguagens. A gente quis trazer essa brasilidade para o cenário”, diz Montanheiro.

A montagem pretende ser um retrato de uma artista que atravessou gerações. Para Toledo, esse diálogo com o presente explica a perenidade da artista. “Os musicais têm um papel importante de manter viva a história. Muita gente jovem foi conhecer Ney Matogrosso ou Silvio Santos por causa dessas montagens.”

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