O Banco Central decidiu reduzir sua taxa de juros, a Selic, de 15% para 14,75% ao ano. Há até poucos dias, investidores e analistas esperavam um corte de 0,5 ponto percentual, mas o início do ciclo de alívio monetário se dá em um quadro complexo, marcado pelos impactos da guerra no Oriente Médio.
Cautela e incerteza nortearam o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom), que evitou indicar próximos passos e optou pelo termo “calibração” da política de juros, em vez de redução. Diante das dúvidas sobre a duração e as consequências da ofensiva de Estados Unidos e Israel contra o Irã, o colegiado estabeleceu, por unanimidade, um corte mais modesto.
Com a volatilidade geopolítica e a alta do preço do barril do petróleo Brent acima dos US$ 110, as projeções de inflação do cenário de referência do BC pioraram significativamente. Para 2026, saltaram de 3,4% a 3,9%; para o terceiro trimestre de 2027, subiram de 3,2% para 3,3% em 12 meses —nos dois casos, acima da meta de 3%.
O cenário doméstico tampouco é tranquilizador. Embora o Copom tenha salientado os efeitos dos juros altos na desaceleração da atividade até o fim de 2025, os dados do início deste ano revelam varejo mais forte, emprego robusto e crescimento da renda —boas notícias de imediato para o cidadão, mas obstáculos para o controle da inflação.
As expectativas de mercado para o IPCA permanecem acima da meta: 4,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,5% em 2028. A inflação de serviços, altamente influenciada pelo ritmo de expansão da renda e do emprego, segue elevada.
A confirmação de uma trajetória mais confiável de desaceleração da economia e dos preços é crucial para que um ciclo de redução da Selic se materialize, levando-a a menos de ainda elevadíssimos 12% no horizonte visível.
A alta dos preços de energia, agravada pelos ataques do Irã à infraestrutura de gás natural nos países vizinhos, pressiona custos globais e complica o cenário para todos os bancos centrais. Escaldados pelo salto da inflação em 2022, eles adotarão cautela em qualquer passo de afrouxamento enquanto durar o conflito.
A rapidez dos movimentos no mercado também obrigou o Tesouro a realizar leilões de recompra de títulos de vultosos R$ 49 bilhões em três dias, na maior intervenção em mais de uma década, para prover liquidez e mitigar a disparada dos juros futuros.
Intervenções para conter o encarecimento dos combustíveis, como a zeragem de tributos federais e o subsídio ao diesel, mesmo compensadas por um controverso imposto temporário sobre exportações de petróleo, elevam as incertezas orçamentárias.
Medidas como essas são comuns em diversos países, mas tornam-se preocupantes onde há contas públicas depauperadas, caso do Brasil sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Quanto mais insegurança quanto à situação fiscal, mais difícil será gerir os títulos públicos e reduzir os juros.
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