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Vladimir: série trata assédio sob choque de gerações – 19/03/2026 – Luciana Coelho

by Silas Câmara

O quanto a existência de uma relação de poder —financeiro, político, físico, intelectual— é determinante para configurar uma dinâmica de assédio entre adultos, mesmo com aparente consenso entre as partes? E o quanto o exercício desse poder com fins sexuais é uma particularidade masculina?

É esse o vespeiro chacoalhado em “Vladimir”, minissérie que estreou neste mês na Netflix e provoca o espectador para rever ideias prontas. O título é uma referência óbvia ao autor de “Lolita”, Vladimir Nabokov, embora aqui não se fale de menores de idade.

A protagonista-narradora é uma professora universitária e escritora de 54 anos, apresentada apenas como M., que se torna obcecada por um colega mais jovem no mesmo momento em que o marido é acusado de assediar alunas. E é dela que estudantes e colegas exigem resposta.

Não se trata de um conto moral, mas de um registro dos nossos tempos. Baseado em um romance lançado em 2022 por Julia May Jonas, o roteiro vertido para a TV por ela mesma é permeado por discussões atuais sobre cancelamento, sexualidade e consentimento. Mas do (raro) ponto de vista de uma mulher que cresceu nos anos 1970 e pensava ter atingido o ápice da liberação sexual até trombar com a geração Z, aquela que diz ter inventado o poliamor.

Rachel Weisz (“O Jardineiro Fiel”), num incomum papel cômico, é M., que contabiliza uma carreira acadêmica respeitável, livros de sucesso com a crítica e com o público, um casamento aberto e sólido com um colega de ofício e uma filha adulta encaminhada. Ah, sim, ela também é bonita.

Ainda assim, por vezes essa mulher que parece um holograma aspiracional nos sai pela tela como uma criatura odienta, cínica e narcisista, que nos força a perguntar: a sensação seria a mesma se o personagem fosse homem? (Spoiler: o marido da protagonista, uma versão de cuecas dela própria vivida por John Slattery, de “Mad Men”, é apresentado como um sujeito simpático e agradável.)

Afinal, como ela pode compactuar com o cônjuge predador? Saber que ele saía com alunas de graduação e não ver problema? Mesmo quando as alunas começam a se queixar que, em seus 20 e poucos anos, eram ingênuas e se deixaram atrair pelo professor experiente, que sempre oferecia um elogio certeiro sobre seus escritos, ambições, planos de carreira?

É quando M. está nesse estado de suspensão que surge Vladimir (Leo Woodall, de “The White Lotus” e “Um Dia”), professor e best-seller aos 30 e poucos, com mulher e uma filha pequena. E as fantasias eróticas começam a engolir a vida da narradora, sempre nariz a nariz com o medo de transformar suas lucubrações sexuais em um caso de fato.

Narrada com sarcasmo, a série exaure o recurso da quarta parede —M. fala com o espectador o tempo todo, lembrando o Francis Underwood de Kevin Spacey em “House of Cards” (talvez não por acaso). Nos piores momentos, cansa; nos melhores, instiga aquela fatia mais experimentada e cínica do público a empatizar com a protagonista imperfeita.

A sacada está em retratar os homens como sujeitos passivos e M. como a responsável pelas situações,

obrigando-nos a refletir sobre desejo, agência, consentimento, arbítrio e outras palavras bem em voga.


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