Home » Erika Hilton, as imbeCIS e o debate sério em segundo plano – 20/03/2026 – Mariliz Pereira Jorge

Erika Hilton, as imbeCIS e o debate sério em segundo plano – 20/03/2026 – Mariliz Pereira Jorge

by Silas Câmara

Você sabe exatamente o que a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher está discutindo neste momento? Provavelmente não. E não por falta de assunto, de urgência ou de material. Não sabe porque o debate foi sequestrado pela eleição de Erika Hilton para a presidência do colegiado, ocorrida em 11 de março. Desde então, a conversa pública orbita muito menos em torno das necessidades das brasileiras e muito mais em torno de símbolos, identidades e disputas de narrativa.

A eleição de Erika está dada. Faço minhas as palavras do colega Hélio Schwartsman: em uma democracia liberal, Erika Hilton é o que ela quiser, mas a contrapartida é que as críticas a qualquer pessoa, grupo ou minoria também precisam ser toleradas. Digo mais, no caso de uma figura pública deveriam ser ouvidas e avaliadas.

Mas o que me interessa é o que aconteceu no minuto seguinte à posse. Em vez de focar liturgia e responsabilidade do cargo, o primeiro grande pronunciamento da deputada tomou a forma de um manifesto de guerra. Em um texto hostil, Erika não economizou agressões: chamou mulheres de “imbeCis” e “cadelas”, sugerindo que qualquer resistência à sua nomeação vinha do “esgoto da sociedade”. É um jogo de palavras rasteiro que mira no baixo ventre da biologia feminina para desqualificar quem ousa questionar a adequação de sua presença ali.

Há um erro crasso de cálculo político, agravado pelo fato de estarmos em um ano eleitoral. Políticos, via de regra, sofrem de uma miopia conveniente: não conseguem olhar além do próprio cercadinho de bajuladores e perdem a chance de enxergar o horizonte. E o horizonte, neste caso, revela um descontentamento ruidoso dentro da própria esquerda. Há centenas, milhares de comentários de mulheres progressistas, eleitoras cativas, que se sentem traídas. Isso sem contar a massa silenciosa que se cala pelo medo legítimo de sofrer retaliação ou de ser cancelada por uma patrulha que não aceita nuances.

Erika e seu entorno decidiram jogar mulheres que batalham pelas pautas femininas no mesmo balaio da transfobia. O próprio Ministério das Mulheres chegou ao desplante de repostar conteúdo em que feministas são rotuladas como transfóbicas. Que diabo de defesa de “todas as mulheres” é essa em que o governo e a militância hegemônica decidem qual feminismo presta e qual deve ser silenciado? É a velha tática, agora travestida de progressismo, de colar em outras mulheres o crachá de “histéricas” e “raivosas”. O apoio que Erika tem ou tinha de boa parte das mulheres de esquerda não apenas trincou; ele foi implodido por uma gestão que prioriza a autofagia em vez da estratégia.

O que se vê é uma legião de mulheres —feministas históricas, eleitoras de esquerda, militantes de base— que discordam da escolha da deputada para a presidência da comissão. E os dados mostram que a notícia não é boa para quem acha que o descontentamento é restrito a setores reacionários: uma pesquisa feita pela Real Time Big Data, com 1.200 entrevistados, aponta que 84% dos brasileiros são contra a eleição de Erika para o cargo.

A direita, oportunista e barulhenta, assiste ao espetáculo de camarote e deita e rola. O nível do debate desceu ao ponto de testemunharmos o episódio grotesco de uma deputada estadual bolsonarista passando tinta marrom na cara no plenário da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) para dizer que, se não entende a dor dos negros, Erika não pode tratar das questões das mulheres. Um teatro absurdo que só ganha tração porque o vácuo de sobriedade do outro lado permitiu que o debate se tornasse uma caricatura de si mesmo.

Enquanto Brasília brinca de tribunal de internet e mede quem é mais “puro” ideologicamente, o mundo real bate à porta da comissão. Precisamos falar seriamente sobre a epidemia de feminicídios, sobre a mortalidade materna, sobre desigualdades, sobre a economia do cuidado que sobrecarrega as brasileiras. São essas as pautas que esperam por sobriedade e trabalho. O protagonismo deve ser da causa, não de quem se senta num cargo. No entanto, as notícias giram hoje em torno de quem está sendo processado por Erika Hilton. Cabe aqui o questionamento: a deputada está usando a estrutura jurídica da Câmara e dinheiro público para processar cidadãos em disputas de narrativa pessoal? Não deveria.

Militantes de qualquer matiz ideológica são mestres em transformar questões coletivas em palanque pessoal. Para além do prejuízo ao debate sobre as questões da mulher, a esquerda parece ignorar o cálculo do dano político dessa batalha. Quando a política abdica da estratégia para se alimentar de autofagia e processos judiciais, ela deixa de ser instrumento de mudança para se tornar um exercício de narcisismo —um erro fatal que a realidade das ruas, mais cedo ou mais tarde, costuma cobrar.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment