[RESUMO] Autor narra os debates a que assistiu no festival de inovação SXSW sobre o avanço da inteligência artificial. Palestrantes abordaram temas como o uso da tecnologia em ofícios criativos, a necessidade de encontros presenciais para impulsionar nossa saúde social e a compreensão sobre como os animais se comunicam.
Estive em Austin, nos EUA, para participar do SXSW (South by Southwest), o maior festival de inovação do mundo. O meu foco foi tomar o pulso da inteligência artificial, assistindo a sessões com acadêmicos, CEOs, pesquisadores, cientistas e artistas.
Em comum, uma sensação curiosa: ninguém ali parecia exatamente calmo. Começando pelo título deste artigo, dito por Sanjay Sarma, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), que completou: “A IA só sabe botar uma palavra atrás da outra”. Essa coisa que bota palavras em linha, porém, está mudando o mundo como nunca.
A IA já saiu da fase em que era um futuro e, hoje, não pode nem sequer ser vista como ferramenta. É um agente, um sistema e já está dentro de tudo: nas buscas, antes no Google e agora no ChatGPT; no trabalho, criando e eliminando empregos; na medicina; na escola; no cinema; nas relações sociais, o que é mais preocupante, vide os suicídios induzidos por ela; e no jornalismo, o que é bem delicado.
O medo de perder o emprego é generalizado, mas a IA não quer só fazer o nosso trabalho —quer reorganizar o nosso dia e a nossa vida e está mudando o clima mental do nosso tempo. Antes, a tecnologia era um assunto. Agora, ela virou o ambiente.
O que acontece com a vida comum quando quase tudo pode ser automatizado, assistido, previsto, editado, melhorado, resumido, sugerido, roteirizado e respondido por uma máquina? Confusão. Essa máquina gentil e dócil é encrenca e solução.
Acontece uma disputa, entre velocidade e sentido e entre eficiência e presença. Podemos ficar mais rápidos, mas estamos ficando mais burros. Nossos cérebros estão atrofiando. Há estudos que apontam o declínio cognitivo dos estudantes que usam IA nos seus trabalhos.
Acredito que só a falta de leitura sistemática já atrofia a capacidade narrativa desses jovens. Isso é um desastre, talvez não só para o trabalho metódico, mas para a vida de forma geral. Imagine se você lê pouco e assiste a nada mais longo que cinco minutos?
O cérebro evoluiu para explorar. Quando a exploração acaba, a necessidade do cérebro acaba. Óculos inteligentes, Waze, redes sociais —tudo contribui para essa atrofia. Notou que o Google Maps acabou com nosso senso de direção?
É preciso mais tempo para explorar e ir mais fundo e mais tempo para poder usar o silêncio. Isso não é incentivado pela IA.
Tudo agora caminha para o médio, para o mediano. Eu chamaria isso de MMM (mundo mais ou menos). Tudo sendo homogeneizado: a língua, as imagens. Quem aguenta ver os videozinhos feitos por IA? São um horror de mesmice. Todo o mundo no mesmo tom, falando coisas parecidas. Simples e sem esforço.
O esforço de busca e de exploração —tentar, errar e refazer— faz parte do cenário da criação e da sobrevivência da humanidade. Se pularmos a parte do esforço, não chegaremos a algo realmente autêntico. Nas artes, isso é mais que certo. Steven Spielberg disse que não vai usar a IA em nada que for criativo. Na ciência, devemos contar que a facilidade de leitura de tudo vai ajudar em descobertas mais rapidamente. Mas, reforço, a falta de exploração nos faz seres mirrados.
Improvisação e imaginação são as duas maiores habilidades neste momento confuso, apontou Jack Conte, o músico que fez uma das palestras mais bombásticas do festival, cobrando direitos autorais dos donos das IAs, em um manifesto forte.
Nisso, o Brasil sai na frente. Somos experts em driblar dificuldades com traquitanas e estamos habituados a vencer sem diploma, que já não é o caminho seguro para uma carreira de sucesso. Os saberes da pessoa valem muito mais, não importa onde ela os conseguiu (cursos no YouTube? TikTok?), mas, sim, se ela trabalha bem em grupo, tem empatia, inteligência emocional etc. Uma pessoa talentosa e diplomada pode acabar com um grupo e um trabalho.
Cada vez mais a IA nos leva para as telas. Porém, cada vez mais sentimos falta do contato humano. Claro. Se boa parte da nossa comunicação é não verbal e os diálogos hoje com a IA são quase sempre verbais, estamos sozinhos demais. Já estamos consultando a IA como terapeuta emocional, e parcela considerável de jovens já pensou em namorar uma IA.
Kasley Killam, especialista em saúde social, diz que 2026 é o ano analógico, pois as pessoas “desejam que as redes sociais ofereçam experiências sociais genuínas”, sendo que mais de 20% fizeram mais amigos neste ano que no ano passado. Esse lance analógico também é visto como nostálgico de um tempo em que havia conexão física entre as pessoas, em que as coisas demoravam para ficar prontas, em que, enfim, o tempo era lento. A velocidade cria ansiedade.
A saúde estava em xeque por causa da internet e suas respostas aleatórias. Agora, está em choque, acelerada pela IA. Além da saúde física e da popular saúde mental e seus burnouts, agora a onda é cuidar da saúde social —a saúde dos relacionamentos. Essa é a nova fronteira. Sem ela, a felicidade passa longe.
Os dados mostram que 871 mil pessoas têm morte prematura por ano no mundo em função do isolamento e da solidão, que pode ser aliviada pela IA, mas não solucionada. Ela pode simular empatia, mas não sente alívio, culpa, luto, desejo, vergonha, ciúme, compaixão ou encantamento. Isso não é um detalhe. É a diferença entre parecer humano e ser humano. A confusão não é saudável. O remédio é mais amigos, mais festas, mais grupos de estudo, mais turismo ou mais caminhadas.
Está nítido que a IA e os novos sistemas de monitoramento de saúde estão mudando a relação das pessoas com o próprio corpo. Hoje, um número crescente de pessoas anda com sensores, relógios, exames no celular e biomarcadores nos anéis. Antes, saúde era um assunto trancado no consultório. Agora, ela vibra no pulso.
Por um lado, isso é bom. Podemos descobrir mais cedo o que antes só aparecia tarde, mas isso também tem um custo psíquico. Acordamos, olhamos para o relógio e descobrimos que dormimos mal, nos recuperamos mal, respiramos mal. Nem tomamos café e já temos a saúde transformada em planilha. Ansiedade. Ansiedade. Ansiedade.
Mas não só de sombras inteligentes viveu esse SXSW. Existem facilitadores da vida criados pela IA. Está chegando o tempo em que teremos um agente (ChatGPT, Claude etc.) que fará pesquisa e comprará coisas para nós. Daremos as diretrizes e a IA irá às compras. Uma lista de supermercado junto com o dinheiro máximo disponível, um prazo, um endereço e um cartão de crédito são os perímetros de ação para começar.
Com o tempo e o nosso feedback, essas compras serão melhoradas em todos os quesitos: preço, prazo, qualidade etc. Você teria coragem de delegar, de A a Z, as compras do mês para uma IA? Programar e comprar sua viagem de férias, como um agente de viagens? Isso só não está acontecendo por uma questão de segurança.
Até o fim de 2027, a IA vai ser seu agente de supermercado e outras coisas. No livro “2041”, de Kai-Fu Lee e Chen Qiufan, você pode ler dez histórias que tratam desse futuro, em que as IAs serão nossas companheiras pessoais, com nome e tudo, e saberão mais de nós que nós mesmos —mas ainda sem emoção.
Outro ponto nessa conversa: os agentes de compras vão procurar coisas com segurança e confiança. Ou seja, vão pesquisar não apenas preço e qualidade, mas também o quanto o consumidor confia naquela empresa. Para isso, valem a avaliação do Google, reportagens de jornais ou a posição no Reclame Aqui.
As marcas vão ter que ficar muito espertas e criar narrativas diferenciadas nos seus sites. Também deverão ter narrativas conversacionais, para que os agentes entendam e confiem naquela marca. Ou seja, muito emprego à vista para refazer o plano de ação de todas as marcas em todas as plataformas.
Hoje, a IA faz muita coisa bem. Em alguns casos, muito bem: organiza informações, resume textos, analisa exames, sugere caminhos, ajuda pesquisadores a cruzar hipóteses, empresas a encurtar processos, criadores a prototipar ideias que antes morreriam no orçamento.
Também já ajuda o jornalismo, um lugar muito sensível e necessário neste dias de polarização e fake news. O fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, não usou meias palavras quando foi perguntado sobre o que seria do mundo sem o jornalismo: “Estaríamos fodidos!”.
O New York Times apresentou uma palestra com o seu “chefe de IA” que foi um alento. Com uma equipe reduzida liderada por Zach Seward, o jornal tem como visão que a IA deve ajudar jornalistas a descobrir histórias, não os substituir. Para ele, o maior potencial da IA no jornalismo é na investigação e pesquisa. Ou seja, IA para analisar dados gigantescos, por exemplo, e jornalistas para interpretar e investigar. A IA pode transcrever centenas de horas de vídeo para o texto ser organizado e pesquisado. Pode ler manuscritos indecifráveis e fazer uma busca semântica em textos, apontando possíveis caminhos de investigação. Sempre com transparência junto aos leitores, o New York Times inova e aponta caminhos concretos para o futuro do jornalismo.
E se os bichos falassem, entre si e com as plantas, o que iríamos descobrir? Para começar, os bichos falam e nós estamos começando a entender essa falação monumental. A Terra está cheia de linguagem, sentido, cultura e inteligência, apenas fora do alcance dos nossos sentidos limitados.
A IA, segundo Aza Raskin, do Earth Species Project, vai ajudar a abrir essa percepção e produzirá uma das maiores mudanças de consciência da história humana: da visão da natureza como cenário ou recurso à sua percepção como uma comunidade de mentes, vozes e mundos. Entender a comunicação entre todos os seres vivos vai nos revelar uma teia de saberes jamais imaginados.
E entre os seres mortos? Alguma novidade? Sim. Agora, já temos os fantasmas generativos, simulações de pessoas vivas ou mortas criadas com IA a partir de seus dados. Podemos usar emails, redes sociais, voz, vídeo, arquivos pessoais etc. Uma pessoa será criada ou recriada em vários formatos possíveis: chatbot, voz interativa, avatar em vídeo ou VR e até agentes autônomos. Vamos poder interagir profundamente com pessoas que já morreram.
Claro que ninguém será ressucitado, mas uma representação comportamental plausível vai ser construída. Imaginemos isso na educação. Poderemos ter um avatar de Santos Dumont conversando e respondendo todas as nossas perguntas, como se ele estivesse ali. Por outro lado, pode ser estranho, se não assustador, ter de volta um ente querido que morreu para conversar com você.
Ninguém ainda afirma nada com muita certeza, nem mesmo sobre a famigerada questão energética —sabemos que a IA consome uma enormidade de energia—, mas os otimistas dizem que as soluções para isso virão da própria IA. Será?
O que me impactou é que a IA é mato hoje. Está por todo lado, e precisamos roçar para poder entender melhor. Sinto que, em um futuro próximo, deixaremos de ser refratários ao seu uso e ela conviverá conosco de forma quase invisível.
Ficará a pergunta: fui eu ou foi a IA quem fez? Acho que a resposta será: eu também sou IA.
O autor viajou a convite da InvestSP (Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade).