“A humanidade acaba de passar pelos onze anos mais quentes já registrados. Quando a história se repete onze vezes, isso já não é mais uma coincidência”, afirma António Guterres, secretário-geral da ONU, ao apresentar o relatório Estado do Clima 2025.
O documento, organizado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e publicado nesta segunda-feira (23), atualiza as evidências de um planeta mais quente e mais desequilibrado em inúmeras variáveis. Inclusive na que estreia no relatório deste ano, o desequilíbrio de energia a diferença do que a Terra recebe de calor do Sol e libera de volta para o espaço. “Em outras palavras”, como explica Guterres, “nosso planeta está retendo calor mais rapidamente do que consegue liberá-lo”.
Os vilões da história são conhecidos, os combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pela mudança climática e, neste momento, argumento para a maior crise planetária desde a pandemia. “Nesta era de guerra, o estresse climático também está revelando outra verdade: nosso vício em combustíveis fósseis desestabiliza tanto o clima quanto a segurança global”, diz o secretário-geral, em óbvia referência à guerra no Irã iniciada por Israel e EUA.
Enquanto a discussão sobre energia renovável mal entra no debate público do conflito, os dados reunidos pela OMM mostram que as últimas décadas de estrago ambiental terão repercussão por séculos. “As atividades humanas estão perturbando cada vez mais o equilíbrio natural, e viveremos com essas consequências por centenas e até milhares de anos”, afirma Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.
“No dia a dia, o clima tem se tornado cada vez mais extremo. Em 2025, ondas de calor, incêndios florestais, secas, ciclones tropicais, tempestades e inundações causaram milhares de mortes, afetaram milhões de pessoas e geraram bilhões em prejuízos econômicos.”
O relatório confirma 2025 como o segundo ou terceiro ano mais quente da história, com aquecimento de 1,43°C sobre a média do período pré-industrial (1850-1900). A marca corrige o número preliminar de 1,44°C, divulgado pela OMM em janeiro, com margem de erro de 0,13°C. Dois conjuntos de dados apontam o ano passado como o segundo mais quente; outros sete conjuntos indicam-o como o terceiro.
A dissonância não altera o fato de que 2024 foi o ano mais quente da história, com 1,53°C, nem que os últimos três anos foram os mais quentes já registrados em 176 anos de temperaturas coletadas.
O desequilíbrio energético, a métrica que estreia no relatório, também indica um momento extremo, com o dado mais alto desde 1960, quando o cálculo começou. Refere-se à quantidade de energia que entra e não consegue sair da Terra devido aos principais gases de efeito estufa, como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso.
Segundo a OMM, 91% dessa energia foi absorvida pelos oceanos, que de 2005 a 2025 se aqueceram em um ritmo duas vezes superior ao observado de 1960 a 2005. Algo entre 11 e 12,2 zeta-joules, ou 10²¹ joules, por ano. Número gigantesco, que ganha algum sentido quando comparado ao consumo de energia da população mundial: equivale a 18 vezes o que gastamos anualmente.
Oceanos aquecidos são um dos motores mais frequentes de eventos extremos, como as chuvas recordes na Espanha, no fim de 2024, e as enchentes no sudeste asiático na última passagem de ano.
“Os avanços científicos têm melhorado nossa compreensão do desequilíbrio energético da Terra e da realidade que nosso planeta e nosso clima enfrentam atualmente”, diz Saulo, ao explicar a adoção do novo critério.
O aquecimento da atmosfera, aquele que se sente no dia-a-dia, representa apenas 1% do excesso de energia que a Terra não consegue devolver ao espaço. Outros 5% são armazenados nas massas continentais, e 3% derretem as massas polares.
As camadas de gelo na Antártida e na Groenlândia sofreram perdas significativas no ano passado, e a extensão média anual do gelo marinho do Ártico, em 2025, foi a menor ou a segunda menor, a depender do conjunto de dados, já registrada na era dos satélites, que começou em 1979.
Gelo derretendo, por sua vez, significa aumento do nível do mar, fenômeno que deve perdurar por séculos, de acordo com projeções do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.
“O caos climático está se acelerando. Atrasar [a transição para as energias renováveis] é mortal”, resume Guterres. “O caminho a seguir deve basear-se na ciência, no bom senso e na coragem de agir.”
Veja outros pontos do relatório anual da OMM:
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O aumento da concentração anual de CO2 em 2024 (dado mais recente) foi o maior desde o início das medições modernas, em 1957. Foi impulsionado pelas contínuas emissões provenientes de combustíveis fósseis e pela redução da eficácia dos sumidouros de carbono terrestres e oceânicos
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Em 2025, o calor dos oceanos (até uma profundidade de 2.000 metros) atingiu o nível mais alto desde o início dos registros, em 1960, superando o recorde anterior, de 2024. É a marcha dos últimos nove anos
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Em 2025, o nível médio global do mar era comparável aos níveis recordes observados em 2024. Estava cerca de 11 cm mais alto do que no início do registro de altimetria por satélite, em 1993. O aumento foi menor do que o do ano anterior, em linha com a variabilidade de curto prazo associada às condições do La Niña
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Cerca de 29% do CO2 proveniente da atividade humana de 2015 a 2024 foi absorvido pelo oceano, levando a uma queda contínua do pH de sua superfície. A acidificação prejudica a biodiversidade, os ecossistemas e a produção de alimentos
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No ano hidrológico de 2024/2025, a perda de massa das geleiras de referência ficou entre as cinco maiores já registradas. Em 2025, ocorreram perdas significativas de massa glacial na Islândia e ao longo da costa do Pacífico na América do Norte
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Mais de um terço da força de trabalho mundial (1,2 bilhão de pessoas) enfrenta riscos relacionados ao calor no local da atividade em algum momento do ano, especialmente aqueles que atuam no setor agrícola e de construção civil